OS JUÍZOS SINTÉTICOS A PRIORI E A CIÊNCIA


JUÍZOS SINTÉTICOS A PRIORI SÃO POSSÍVEIS?

Este post tem por principal objetivo explanar sobre alguns conceitos e objeções elucidados por Immanuel Kant no Prefácio e na Introdução de sua obra – Crítica da Razão Pura – a fim de descortinar o procedimento por ele utilizado ao estabelecer as condições de possibilidade para que um saber se torne, propriamente, científico. No Prefácio, Kant utiliza-se do conceito de construção[1] para dizer se a lógica, a matemática, a física e a metafísica entraram para um caminho seguro dentro da ciência. Já na Introdução, Kant problematiza a questão de outra forma tendo por objetivo tornar claro que tal condição de possibilidade (para algo tornar-se científico) tem que satisfazer a noção de juízo sintético a priori; ou seja – na Introdução – Kant visa a questionar não simplesmente como é possível um conhecimento científico, mas como são possíveis juízos sintéticos a priori aplicados aos saberes que se pretendem científicos. Ademais, visa-se neste trabalho a confrontar as ideias de Kant às ideias de David Hume – estabelecidas em sua obra “Investigações sobre o entendimento humano” – para explicar, por meio de termos kantianos, em que medida os juízos analíticos se diferenciam dos juízos sintéticos.
Na Introdução da Crítica, pode-se afirmar que há uma diferenciação entre Início (tempo lógico) e Origem (tempo cronológico) no que concerne à distinção entre conhecimento puro e empírico. Kant afirma que do fato de o conhecimento ter início na experiência não se segue que ele se regule pela (e tenha origem na) experiência.
 “Não há dúvida de que todo o nosso conhecimento começa com a experiência; Ainda, porém, que todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso surge apenas da experiência.” [2]
Com efeito, tal como quer Hume, nosso conhecimento se desperta do estímulo exterior que recebemos por meio dos nossos sentidos. Em nossa razão pura, nenhum conhecimento está de modo anterior à experiência, pois (se ao contrário fosse) equivaleria dizer que todo o nosso conhecimento é inato. Decerto, nenhum conhecimento antecede em nós à experiência e todos eles nela se iniciam. No entanto, do fato de o nosso conhecimento ter início na experiência não se segue que ele tenha origem da experiência, pois o nosso conhecimento empírico pode ser um composto de impressões que a nossa própria faculdade de conhecimento produz. Feito tal distinção, Kant dá procedência à sua investigação por meio de uma abertura à seguinte questão: existiria, portanto, um conhecimento que fosse independente da experiência? Tal questão o permite fazer uma distinção entre conhecimento a priori e conhecimento a posteriori. Decerto, o conhecimento a posteriori é aquele que tem suas fontes na experiência. De modo contrário, o conhecimento a priori é aquele que não apenas é independente desta ou daquela, mas de toda e qualquer experiência. Isto se dá desta forma pelo fato de que todo conhecimento a priori não é derivado diretamente da experiência, mas de uma “regra universal” que, no entanto, é adquirida via experiência. Por exemplo, ao retirarmos o suporte que sustenta um corpo material este (o corpo) certamente cairá. Nós – a priori – inferimos tal proposição, já que não é necessário esperar pela sua queda (empiricamente) para podermos afirmar que o corpo cairá. No entanto, tal afirmação não pode ser totalmente a priori, pois se segue de uma “regra universal” (que foi, em algum momento, apreendida por meio da experiência), qual seja, todos os corpos são pesados. Ademais, Kant afirma que dentre os conhecimentos a priori denominam-se puros somente aqueles em que não há nada de empírico misturado.
“Assim, a proposição ‘toda mudança tem uma causa’, por exemplo, é uma proposição a priori, mas não é pura, porque ‘mudança’ é um conceito que só pode ser derivado da experiência.” [3].
Decerto, a experiência nos mostra como algo é constituído, porém, não por meio de relações necessárias[4], já que a experiência é – por sua própria natureza constitutiva – contingente[5]. A experiência não dá jamais universalidade verdadeira ou estrita aos seus juízos, pois os processos que ocorrem nela (tal como Hume defende) são processos indutivos[6] levando à universalidade suposta e comparativa que, partindo de sentenças singulares elevam-nas ao máximo fazendo delas sentenças generalizadoras: Kant chama isto, tal como descrito, de universalidade empírica. Por outro lado, um juízo pensado em sua universalidade estrita não admite nenhuma exceção possível e, portanto, não pode ser deduzido da experiência (que é contingente). Tal universalidade (estrita) está diretamente relacionada ao conhecimento a priori. De modo mesmo, a necessidade – inexistente à experiência contingente – coexiste no conhecimento a priori; Ademais, é absolutamente a priori aquele juízo que não possui relação com outras proposições, mas seja – por si só – determinado. Ou seja, é um juízo que não se deduz de outras proposições, mas gira em torno de sua própria necessidade.
“A necessidade e a universalidade estrita são, assim, indícios seguros de um conhecimento a priori, e também pertencem inseparavelmente uma à outra.” [7]
Temos, então, uma definição um pouco mais detalhada. O conhecimento a priori não é simplesmente aquele conhecimento independente de toda e qualquer experiência ou que não possua nada de empírico misturado (a priori puro), mas é um conhecimento que possui, também, como características inseparáveis, a necessidade e a universalidade. O conhecimento a priori é, portanto, estritamente universal e necessário.
David Hume, na seção 4 de sua Investigações, divide o conhecimento entre puro e empírico. Segundo ele, para conceber os objetos puros basta simplesmente que estes estejam livres de contradição. Neste ponto – sob a perspectiva kantiana – o erro de Hume consiste no ato de assumir o conhecimento puro como isolado da experiência em geral, já que Kant assume que todo o nosso conhecimento (seja ele puro ou não) começa com a experiência, apesar de não ter origem na experiência. Ademais, Hume afirma que é a própria experiência guia de todo nosso conhecimento; mas, de onde a própria experiência extrairia sua própria certeza (já que é estritamente contingente)? Como poderiam tais extrações empíricas tornar-se princípios universalmente válidos? É justamente neste ponto que consiste o método modificado do modo de pensar proposto por Kant, qual seja: “que nós só podemos conhecer a priori das coisas aquilo que nós mesmos nela colocamos” [8]. Kant faz uma crítica direta a toda tradição empirista ao afirmar que é o nosso conhecimento guia da experiência e não a experiência que deve guiar nosso conhecimento acerca das coisas no mundo; Ou seja, Kant defende não o sujeito passivo e receptor de estímulos – tal como Hume e boa parte da tradição empirista concebe – mas o sujeito ativo na procura de um conhecimento que a razão pura constrói a priori. Ainda sob a mesma perspectiva, Kant determina que não somente princípios podem ser a priori, mas também conceitos. Deste modo, o conceito de espaço e de substância são, necessariamente, a priori: por um lado, se apagarmos tudo aquilo de empírico que há em um corpo (cor, textura etc.) permanecerá ainda o espaço que ele ocupava, pois esta é a própria condição de possibilidade do objeto. De modo mesmo, se apagarmos todas as propriedades corpóreas ou incorpóreas dadas a este corpo pela experiência não poderíamos, no entanto, retirar aquilo que nos permite pensá-lo como substância. Logo, tanto o espaço quanto a substância estão a priori em nossa razão pura.
 “[…] Certos conhecimentos abandonam até mesmo o campo de todas as experiências possíveis e, por meio de conceitos aos quais não pode ser dado nenhum objeto correspondente na experiência, aparentam estender o alcance de nossos juízos para além de todos os limites da mesma.” [9]
Trata-se aqui da metafísica clássica, tal qual toda tradição filosófica se embasou. De fato, a metafísica dogmática[10] não pode ser defendida, pois não possui objeto correspondente na experiência e, nesta direção, Kant visa a denunciar o desvio da razão promovido pela metafísica na sua impossibilidade de ser uma verdadeira ciência. Afirma que foi David Hume quem o despertou do sono dogmático, pois (por meio de sua Investigações) expôs a metafísica como o pseudos saber, tomando assim medidas céticas para rejeitá-la como conhecimento especulativo. Apesar de toda esta empreitada, nós a consideramos importante – até mesmo mais que tudo aquilo cognoscível no campo dos fenômenos – pois diz respeito às finalidades morais (propósito último):
“Deus, liberdade e imortalidade constituem essas inevitáveis tarefas da própria razão pura” [11].
Ademais, a metafísica incorre num erro praticamente natural, pois uma vez tendo abandonado o solo da experiência dificilmente se reconstituiria novamente. Seu conteúdo fica, por assim dizer, totalmente incerto; não se sabe a origem nem sua fundamentação. O que se sabe é que o entendimento acessa seus conhecimentos a priori. Todos estes fatores anteriormente citados e, o principal deles, “ter-se desvinculada do solo da experiência” fizeram com que Hume abandonasse a metafísica como conhecimento do suprassensível. Kant, por outro lado, examina-a já que o nosso entendimento anseia por conhecê-la. Uma boa explicação para que a metafísica não incorresse em total esquecimento é que, por estar além do âmbito empírico, tem-se a segurança de que não pode ser contrariada pela experiência. Nossa razão tende a ampliar cada vez mais nossos conhecimentos acerca dela e estes só podem ser suspensos caso encontremos uma clara contradição.[12] A matemática, por exemplo, nos mostra o quanto podemosampliar nosso conhecimento acerca dela a priori, pois a ela são cabíveis apenas os objetos e conhecimentos apresentados à intuição. O impasse, no entanto, é que mesmo a intuição pode ser dada a priori, ou seja, não basta conhecer os objetos limitados da intuição. O impulso para a ampliação do nosso conhecimento não reconhece nenhum limite. Neste sentido, Kant afirma que Platão abandonou o mundo sensível, justamente pelo fato de que este impunha muitos limites à razão. Sabe-se, desde a Antiguidade, que Platão consolida sua teoria das ideias independentemente do mundo sensível, pois mesmo que o conhecimento sirva-se de dados empíricos ele é necessariamente inteligível (nous). No entanto, ao abandonar o solo da experiência Platão não encontra nenhuma resistência que o permitisse aplicar suas forças e movimentar o entendimento. Parece familiar à razão humana fundamentar suas ideias e só tardiamente questionar ou examinar seus pressupostos. Isto se dá pelo simples fato de que somos convencidos (por muitas vezes) pela falsa aparência que esta articulação de ideias nos transmite; mesmo esta articulação é usada para que sejamos privados de fazer tal exame e, assim, chegar a conclusões mais críticas e mais sólidas. Esta articulação de ideias se dá por meio de uma decomposição de conceitos que temos dos objetos já conhecidos anteriormente. Desta decomposição se seguem diversos conhecimentos (antigos e por nós sabidos) que são apreciados como se fossem novos discernimentos. Doutro modo, se a priori formos capazes de introduzir sob essa ficção (falsa aparência) afirmações de um tipo inteiramente diverso, nos depararemos com um acréscimo de dados que são estranhos ao conceito em questão.
Kant estabelece que existam dois tipos de conhecimento: os que acrescem e os que decompõem. Para tanto, ele introduz em sua Crítica a distinção entre juízo analítico e juízo sintético. Tal distinção é feita para explicar os dois modos pelos quais é pensada a relação sujeito-predicado: Os juízos analíticos são aqueles em que a conexão do predicado com o sujeito é pensada por meio da identidade (A=A); são, também, denominados juízos de explicação/ elucidação, pois não acrescentam nada de novo ao conceito do sujeito, mas apenas resultam em conceitos (já pensados anteriormente) por meio de uma decomposição. Por exemplo, ao dizermos que “todos os corpos são extensos” estamos proferindo um juízo analítico, já que não se tem a necessidade de sair do conceito que ligamos à palavra corpo para verificar a conexão com seu predicado (extensão); basta, portanto, decompor o conceito de corpo e já encontraremos, como correspondente, o conceito de extensão. Por outro lado, os juízos sintéticos são aqueles que introduzem um conhecimento completamente novo, que não estava implícito na definição dos seus termos: ao contrário dos juízos analíticos, os juízos sintéticos não possuem relações de identidade e são denominados juízos de ampliação, já que acrescentam um predicado ao sujeito que não era nele pensado e nem foi extraído por decomposição. Por exemplo, ao dizermos que “todos os corpos são pesados” estamos proferindo um juízo sintético, já que o predicado não está contido implicitamente no conceito que penso de um corpo em geral (tal como no juízo analítico). Há, portanto, um acréscimo do predicado ao sujeito em questão. Em termos aristotélicos, os juízos analíticos dizem ‘algo uno do sujeito’ (por meio de identidades), enquanto que os juízos sintéticosdizem ‘algo outro do sujeito’ (acrescentando-lhes). Os juízos da experiência, por sua vez não podem seranalíticos e são todos eles sintéticos. Isso se dá pelo fato de que os juízos analíticos não precisam do testemunho da experiência: eles são regulados pelo princípio de identidade não havendo, assim, a necessidade de sairmos do nosso próprio conceito para formular um juízo. Ao dizermos da extensão do corpo (todo corpo é extenso) o fazemos a priori, pois não é um juízo da experiência. Antes de irmos à experiência já possuímos em nossa razão pura as condições necessárias para inferimos tal juízo dentro do conceito; deste conceito, ocorre uma extração do predicado (segundo o princípio de não contradição) de modo a tornarmo-nos conscientes da necessidade de tal juízo. A isto, a experiência jamais poderia guiar-nos. Portanto, os juízos analíticos independem da experiência; se independem da experiência podemos afirmar que são todos eles a priori; pelo fato de serem a priori (e regulados por princípios lógicos, mais especificamente, de identidade) não podem ser conhecidos/ não geram conhecimento, pois a própria lógica não é uma ciência, mas um mero sistema organizador do pensamento.
No entanto, ao dizermos “todo corpo é pesado” se não incluirmos o predicado do peso no conceito de um corpo em geral[13], tal conceito ainda caracterizaria um objeto da experiência a qual é possível fazer acréscimos de outros dados empíricos (da mesma experiência). É possível que, de maneira analítica (a priori/ por decomposição), nós conheçamos o conceito de corpo tendo em vista suas propriedades que são pensadas nesse conceito (textura, formato etc.).  O conceito de peso, por sua vez, pode ser encontrado caso nós façamos remissão à experiência (a mesma experiência de onde havíamos extraído o conceito de corpo) de modo a conectar – por ampliação do nosso conhecimento – o conceito de peso ao conceito de corpo seguido de suas propriedades supracitadas (textura, formato etc.). Tal ampliação (acréscimo) se dá por um processo de síntese entre sujeito e predicado. Esta possibilidade de síntese (entre o sujeito e o predicado) só é possível na experiência, pois apesar de um não estar contido no outro, ambos os conceitos (relacionados ao predicado e ao sujeito, respectivamente, peso e corpo), pertencem um ao outro ainda que de maneira contingente (a posteriori, tal como quer Hume). O fato é que tal relação se dá devido às partes pertencerem a um único todo: o da mesma experiência, que é propriamente a ligação sintética das intuições. Por isso, tais juízos de experiência não são analíticos, pois equivaleria dizer que são a priori [14]. Os juízos de experiência são denominados, portanto, sintéticos (neste caso, sintéticos a posteriori).
Há, então, um grande impasse: existem tanto juízos analíticos, que são tautológicos e não podem ser conhecidos; quanto juízos sintéticos (a posteriori), que são cognoscíveis – mas não são universais – pois se derivam da experiência contingente. Por qual juízo nosso conhecimento deve ser guiado se nos analíticoshá apenas decomposição daqueles conceitos que nós já conhecemos; e nos sintéticos (a posteriori), embora acresça novos conceitos ao sujeito por meio do predicado, fornece-nos apenas um conhecimento totalmente empírico? É por meio deste impasse que Kant introduz a noção de juízos sintéticos a priori:
“Nos juízos sintéticos a priori, contudo, falta por completo esse recurso auxiliar. Se devo sair do conceito ‘A’ para conhecer um conceito ‘B’ a ele ligado, o que é isso em que me apoio e que torna possível a síntese, se não tenho aqui a vantagem de poder procurá-lo no campo da experiência?” [15]
 Os juízos sintéticos a priori são juízos ampliativos, universais necessários. Ampliativos, pois dizem algo outro do sujeito, ou seja, acrescentam um predicado ao conceito do sujeito que não era nele pensado. Universal, pois não admite nenhuma exceção possível; e necessário, pois o modo de relacionar o sujeito ao predicado é determinado e não pode ser diferente. Tomemos, por exemplo, a proposição “tudo o que acontece tem a sua causa”. Em princípio, poderíamos dizer que este juízo é analítico pelo simples fato de que “aquilo que acontece” pressupõe uma sucessão temporal. No entanto, o conceito de causa é algo que está para além desse conceito apontando, assim, para algo distinto daquilo que acontece (no momento presente). Esta proposição só pode ser um juízo sintético, pois seu predicado (tem a sua causa) não está contido implicitamente no conceito de acontecimento (que é sujeito).
“O que é aqui o desconhecido x9, em que o entendimento se apoia quando acredita encontrar fora do conceito ‘A’ um predicado ‘B’ – dele distinto – mas ainda assim a ele conectado?” [16]
 Retomando a questão “tudo o que acontece tem a sua causa” podemos afirmar que não é uma proposição empírica, já que proposições empíricas estão limitadas estritamente ao tempo presente de tal modo que não podemos fazer generalizações. Não podemos dizer “todos os acontecimentos”, pois não somos capazes de intuir os fenômenos que ocorreram no passado ou que ocorrerão no futuro. Ademais, afirmar que “tudo o que acontece tem a sua causa” equivale a dizer que todos os acontecimentos sempre tiveram e sempre terão uma causa (seja no passado, no presente ou futuro). Este juízo, portanto, não pode jamais ser um juízo derivado da experiência (sintético a posteriori), mas possui uma necessidade e uma universalidadeque nos leva a afirmar que tal juízo é sintético a priori. Deste modo, Kant visa a estabelecer que o nosso conhecimento especulativo a priori se funda exatamente nos princípios sintéticos (de ampliação). Os juízos analíticos, por sua vez, são necessários para se atingir grau de clareza entres os conceitos para que, assim, aconteça uma síntese segura no que concerne à aquisição de todo o nosso conhecimento.
No Prefácio, Kant utiliza-se do conceito de construção para dizer se a lógica, a matemática, a física e a metafísica entraram para um caminho seguro dentro da ciência. Já na Introdução, Kant problematiza a questão de outra forma tendo por objetivo tornar claro que tal condição de possibilidade (para algo tornar-se científico) tem que satisfazer a noção de juízo sintético a priori; A questão passa a ser feita da seguinte maneira: Como são possíveis os juízos sintéticos a priori aplicáveis aos saberes da matemática, da física e da metafísica? Kant afirma que a matemática possui, tão somente, juízos sintéticos (de ampliação). Proposições que se pretendam matemáticas são sempre juízos a priori e não empíricos, pois tais proposições carregam consigo uma necessidade que não pode ser extraída da experiência (pois esta é contingente). Caso não se aceite tal definição, Kant propõe que entendamos a matemática como pura[17].
“A principio se poderia pensar, de fato, que a proposição “7 + 5 = 12” é uma proposição meramente analítica que se segue do conceito de uma soma de sete e cinco segundo o princípio de (não) contradição.” [18]
 Kant tem por objetivo, neste ponto, refutar a teoria humeana acerca dos objetos puros[19] da matemática pois, na seção 4 de sua Investigações, Hume divide o conhecimento entre puro e empírico (relação de ideias[20] e questões de fato[21]). Como já foi dito neste trabalho, Hume defende que para conceber os objetos puros da matemática basta simplesmente que em nossa razão pura eles estejam livres de contradição. Kant, em resposta a isto, afirma que o conceito de 12 não é de modo algum pensado quando pensamos na soma entre 7 e 5. Até mesmo decompondo o conceito desta soma (7 + 12) não obteremos nunca o conceito de 12. Kant determina que seja necessário ir além desses conceitos (7 e 5) e recorrer ao auxílio de uma intuição[22] correspondente a um deles. Por exemplo, se tomarmos os nossos 5 dedos como dados da intuição acrescentaríamos aos poucos ao conceito de 7. O número 12 surge, justamente, deste acréscimo do número 5 (intuído) às unidades de 7. Nossa razão já havia pensado no conceito da soma (7 + 5), mas não relacionava (de imediato) que tal soma resultasse no número 12, pois é necessário que tal processo seja apresentado à intuição correspondente. Portanto, esta proposição aritmética é, sobretudo, não a consequência da decomposição (analítica) desses conceitos, mas é uma proposição sintética (de ampliação).
De modo mesmo, a geometria que possui todos os seus conceitos sinteticamente“Que a linha reta seja a mais curta entre dois pontos é uma proposição sintética” [23]. O conceito de reto é um conceito qualitativo e não quantitativo; acrescentamos-lhes o conceito de mais curto e este não pode ser decomposto (analiticamente) do conceito de linha reta. Funda-se, então, uma síntese que só é possível por meio do auxílio fornecido pela intuição. Ademais, os princípios estabelecidos pelos geômetras são aparentemente analíticos, ou seja, de decomposição e se baseiam no princípio de identidade e de (não) contradição (tal como Hume defendia). “Por exemplo: ‘A = A’, ‘o todo é igual a si mesmo’, ou ‘(A + B) > A’, i.e, ‘o todo é maior que sua parte’” [24]. Kant afirma que proposições deste tipo são válidas como conceitos e permitidas na matemática pelo simples fato de também serem apresentadas à intuição. Com efeito, o que há nessas proposições é um acréscimo – pelo pensamento – de um predicado a um dado conceito e isto já justifica sua necessidade. Ademais, o que estas proposições querem dizer em si mesma (analiticamente) é diferente daquilo que elas querem dizer como método da geometria (sinteticamente). De fato, não devemos pensar como deve ser geometria, mas como se dá o papel aí da geometria; isso nos mostra claramente que o predicado se incorpora aos conceitos, mas não como pensado nele mesmo, e sim, por meio de uma intuição que possui estrita relação com o conceito em questão.
A física, por sua vez, possui (em si mesma) juízos sintéticos a priori como princípios. Estes princípios, tal como o de ação e reação[25], por exemplo, são juízos de ordem necessária (a priori) e portanto são sintéticas (que acrescem). Tal proposição não pode ser pensada analiticamente, mas sinteticamente, pois lhes acrescentamos a priori um conceito que está para além daquilo que pensávamos dele.
Na metafísica, uma ciência pouco ensaiada – mas que possui grande influência na vida moral – tem suas proposições fundamentadas em juízos sintéticos a priori, pois não se relaciona apenas aos juízos de decomposição (analíticos). A todo custo, visamos – a priori – a ampliar (sinteticamente) nosso conhecimento acerca da metafísica (descobrindo as condições de possibilidade do mesmo). Para isso, empregamos princípios que acrescentam, ao conceito dado, algo outro (que nele não estivesse contido), por meio de juízos sintéticos a priori, já que a experiência não pode acompanhar-nos nesta empreitada. Por assim dizer, fica definido os juízos que regulam a metafísica.
“No entanto, também esse tipo de conhecimento, em certo sentido, tem de ser visto como dado e a metafísica é real, se não como ciência, ao menos como disposição natural (metaphysica naturalis)” [26]
A nossa razão tende, naturalmente, a buscar os objetos da metafísica. Kant chega a afirmar que sempre houve e sempre a haverá uma metafísica, pois a razão humana vê-se impulsionada pela própria necessidade especulativa. A metafísica por diversas vezes fracassou, pois tentava assumir o papel de uma ciência não fazendo, assim, a (auto) crítica necessária para, só depois, afirmar-se como algo científico. O ceticismo Humeano segue-se do mesmo erro, pois somente a crítica nos conduz necessariamente à ciência; por outro lado se agirmos dogmaticamente, sem crítica, seremos conduzidos a afirmações infundadas e até mesmo quiméricas. Em suma, a metafísica dogmática (que não fez a crítica), não pode se firmar como aquela ciência que opera analiticamente (por decomposição; no âmbito lógico), mas este é apenas um dos passos a ser dado para que – na busca da ampliação do conhecimento sintético a priori – possamos encontrar a verdadeira metafísica (crítica). Kant afirma que somente por meio desse processo crítico a metafísica poderá ser, finalmente, desenvolvida de maneira próspera e frutífera.
NOTAS
[1] “O conceito de construção combina o a priori e o concreto, e o faz mediante a apresentação de seus conceitos em intuição”. (CAYGILL, Howard. – Dicionário de Kant – pág. 112) Em outras palavras, significa: “apresentar a priori uma intuição correspondente ao conceito”. MACHADO, Roberto – Deleuze: A arte e a filosofia – Ed. ZAHAR, pág. 121.
[2] KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução de Fernando Costa Mattos; Rio de Janeiro: Ed.: Vozes, 2012, Introdução (B1).
[3] Ibidem, (B3).                                                                             
[4] Aquilo cujo modo é determinado e não pode ser diferente.
[5] Aquilo que pode ou não suceder; incerto, indeterminado. Aquilo que sempre muda.
[6] Inferência ampliativa que partindo de proposições singulares é capaz de fazer generalizações. Por exemplo, ‘Vejo que todos os cisnes são brancos, logo todos os cisnes são brancos’. A primeira proposição ‘Vejo que todos os cisnes são brancos’ é composta por um conjunto de observações singulares. A segunda proposição ‘logo todos os cisnes são brancos’ é, por sua vez, uma conclusão generalizada que partiu da premissa mencionada’.
[7] Ibidem, B4.
[8] Ibidem, Prefácio à 2ª Ed. (B XVIII).
[9] Ibidem, (B6)
[10] Assume sem exame prévio a capacidade ou incapacidade da razão para acessar tal conhecimento (metafísico). A Crítica se opõe não ao procedimento dogmático da razão (método dedutivo), mas ao próprio dogmatismo, ou seja, a oposição está diretamente relacionada ao pretenso trabalho de progredir apenas com um conhecimento puro a partir de conceitos, sem uma investigação do modo e do direito pelos quais teria chegado a ele. Logo, o que se critica de fato é que a metafísica não pode ser tomada como um conhecimento seguro sem antes fazer uma “autocrítica”: examinar quais são seus limites e quais são suas capacidades. A crítica a ser feita é, sobretudo, a organização provisória necessária para a promoção de uma metafísica fundamental enquanto ciência. – Ibidem, Prefácio à 2ª Ed. (B XXXV)
[11] Ibidem (B7)
[12] Contradição esta que pode ser evitada caso nossas ficções sejam feitas cautelosamente não as tornando, por isto, menos fictícias.
[13] Entendamos por “corpo em geral” não apenas os corpos materiais, mas os objetos virtuais da geometria (figura).
[14] Universal e necessário.
[15] Ibidem, (B12-B13)
[16] Ibidem (B 13)
[17] Dentre os conhecimentos a priori denominam-se puros aqueles em que não há nada de empírico misturado. Ibidem, (B3).
[18] Ibidem, (B15).
[19] Figura e número.
[20] Constituído de objetos puros, pois dizem respeito às matemáticas [geometria, álgebra e aritmética]; estes objetos são regidos pelo princípio de identidade, ou seja, 7+5= 12, pois 12 contém 7+5. Os objetos puros da matemática independem da experiência, pois são concebidos intuitivamente. Segundo Hume, para conceber estes objetos basta que, em nosso pensamento, eles estejam livres de contradição
[21] Os objetos de segunda ordem estão atrelados a tudo aquilo que compreende a experiência. Ademais, todos os raciocínios relacionados a estes objetos empíricos parecem ter fundamento na relação de causa e efeito. Esta relação fornece meios cruciais para que nossa imaginação seja capaz de representar[21] algo que está para além das evidências mnemônicas e sensíveis. Hume afirma que a relação de causa e efeito em nada pode ser a priori, pois provém inteiramente da experiência.
[22] Faculdade cognitiva capaz de adequar a relação do sujeito ao objeto espaço temporalmente.
[23] Ibidem, (B16).
[24] Idem.
[25] “Toda força de ação gera uma força de reação contrária e de mesma intensidade” (Encontra-se em Princípios matemáticos da filosofia natural, publicada em 5 de julho de 1687: Terceira Lei de Newton.)
[26] Ibidem, (B 21).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução de Fernando Costa Mattos; Rio de Janeiro: Ed.: Vozes, 2012.
HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Ed.: UNESP, 2004.
FIGUEREDO, Vinícius de. Kant & a crítica da razão pura. – Rio de Janeiro: Ed.: ZAHAR, 2005.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: de Spinoza a Kant. Trad. Ivo Storniolo. Ed.: Paulus, 2005.
MACHADO, Roberto. Deleuze: A arte e a filosofia. Ed.: ZAHAR, 2010.
NEWTON, Isaac. Princípios matemáticos da filosofia natural. Ed.: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.
CAYGILL, Howard. Dicionário Kant/ Howard Caygill. Trad: Álvaro Cabral; Rio de Janeiro; Ed.: ZAHAR, 2000.
LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. Trad. Fátima Sá Corrêa et alli. São Paulo: Ed.: Martins Fontes, 1999.