JOHN LOCKE

"todos os homens, que, sendo todos iguais e livres, nenhum deve prejudicar o outro, quanto à vida, à saúde, à liberdade, ao próprio bem". E, para que ninguém empreenda ferir os direitos alheios, a natureza autorizou cada um a proteger e conservar o inocente, reprimindo os que fazem o mal, direito natural de punir"

FRIEDRICH HAYEK

“A liberdade individual é inconciliável com a supremacia de um objetivo único ao qual a sociedade inteira tenha de ser subordinada de uma forma completa e permanente”

DEBATES FILOSÓFICOS

"A filosofia nasce do debate, se não existe a liberdade para o pensar, logo impera a ignorância"

A Filosofia é.....

"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir". Descartes

LIBERDADE

"Liberdade, Igualdade , Fraternidade. Sem isso não há filosofia. Sem isso não há existência digna.

"Nós temos um sistema que cobra cada vez mais impostos de quem trabalha e subsidia cada vez mais quem não trabalha"

LUDWING V. MISES

"O socialismo é a Grande Mentira do século XX. Embora prometesse a prosperidade, a igualdade e a segurança, só proporcionou pobreza, penúria e tirania. A igualdade foi alcançada apenas no sentido de que todos eram iguais em sua penúria"

sábado, 11 de junho de 2016

TEORIA DO CONHECIMENTO E A CIÊNCIA EM KANT


 Immanuel Kant (1724-1804) pode ser considerado um divisor de águas na história da filosofia. Há quem afirme que se pode fazer uma filosofia contra Kant ou a favor de Kant; mas nunca sem Kant. De fato Kant é dos maiores filósofos da modernidade. Seu pensamento propôs uma revolução tão grande e significativa que ele próprio o comparou a revolução criada por Copérnico no campo da astronomia; destarte surgiu a expressão “Revolução copernicana de Kant”; referindo-se à revolução que Kant propôs com relação ao tema do conhecimento.O presente artigo tem como base a obra “Crítica da Razão Pura”. É nesta obra que Kant vai tratar do problema do conhecimento, do valor dos conhecimentos e é aqui que poderemos constatar a revolução copernicana realizada por Kant. Nosso objetivo aqui é mostrar como os juízos são necessários no processo do conhecimento. Porém antes de nos atermos aos juízos analisaremos alguns aspectos do processo de conhecimento em Kant que nos ajudarão a distinguir os juízos.

Para entendermos adequadamente o alcance das afirmações de Kant, precisamos situá-lo no contexto do Iluminismo. Este percorreu duas etapas: a primeira, ligada à concepção absolutista da razão, encontra a capacidade de organizar racionalmente os dados da experiência num princípio único, identificado com o Soberano Absoluto. Seria o momento do absolutismo, personificado na figura de Luís XIV (ao longo do século XVII). Entre 1680 e 1715 este modelo entrou em crise, no momento identificado por Paul Hazard como “crise da consciência européia” [cf. Hazard, La crise de la conscience européenne, Paris: Fayard, 1961].

Na segunda etapa do Iluminismo, encontramos a razão sendo apropriada pelos membros da sociedade; é a etapa correspondente às grandes revoluções do século XVIII, que culminam com a Revolução Francesa (1789). (É claro que este momento foi precedido, de forma pioneira, pela Gloriosa Revolução britânica de 1688). Kant faz parte desse espírito do tempo, que almeja encontrar uma forma de explicar a razão que pode ser apropriada por todos os seres humanos. Na tentativa em prol de identificar essa apropriação universal da razão, Kant se depara com a proposta da perspectiva transcendental formulada por Hume, e encontra que ela explica, de forma muito mais simples, a estrutura ontológica que dá sustentação ao nosso conhecimento, sem ter de atrelar a objetividade do mesmo a uma substância externa ou coisa em si. Ao sair do seu “sonho dogmático” (identificado com a metafísica de Leibniz), Kant exprime, de forma clara, a nova concepção universalista da razão e a põe em relação direta com a nova física formulada por Galileu e Newton, numa genial síntese entre as tendências libertárias presentes no século XVIII e o status atingido pelas ciências da Natureza, na teoria elaborada por Isaac Newton, que tinha se distanciado do ponto de vista dinâmico e que se atrelou definitivamente ao ponto de vista cinemático, ligado à apreensão dos fenômenos, sem preocupações metafísicas. Nessa empreitada, o pensador alemão terminou sistematizando a perspectiva transcendental, que tinha sido postulada por David Hume.

Obras:

Único argumento possível para uma demonstração da existência de Deus (1763).
Sonhos de um visionário, interpretados mediante os sonhos da metafísica (1766).
Dissertação sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do mundo inteligível (1770).
Crítica da razão pura – Primeira edição (1781). Segunda edição (1787).
Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa vir a ser considerada como ciência (1783).
Fundamentos da metafísica dos costumes (1785).
Crítica da razão prática (1788).
Crítica da faculdade de julgar (1790).
A religião dentro dos limites da simples razão (1793).
A paz perpétua (1795).
O conflito das faculdades (1798).
Antropologia desde um ponto de vista pragmático (1798).

O pensamento de Immanuel Kant pode ser sintetizado nos seguintes 10 pontos:

1 – O sentido do Iluminismo.- “O que é a Ilustração? É a saída do homem da sua menoridade, da qual ele mesmo é responsável. Menoridade, ou seja, incapacidade de se servir do seu entendimento sem a orientação de outrem, menoridade da qual ele mesmo é responsável, pois a causa reside não na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem para se servir dele sem a tutela de outrem. Sapere aude! Tem coragem para te servir do teu próprio entendimento! Essa é a divisa das Luzes!” [Kant, Immanuel. “Respuesta a la pregunta: Qué es la Ilustración?” In: Kant, Erhard, Freiherr von Moser, e outros. Qué es Ilustración?  - Estudo preliminar de Agapito Mestre; versão espanhola de Agapito Mestre e José Romagosa – 3ª. Edição, Madrid: Tecnos, 1993, p. 17].

2 - Kant marcou definitivamente os rumos da filosofia ocidental, desatrelando-a da metafísica e colocando-a, de maneira firme, no contexto da denominada perspectiva crítica ou transcendental. Não temos acesso à essência substancial das coisas, embora não possamos prescindir delas na elaboração do nosso conhecimento. Da realidade somente conhecemos o fenômeno, aquilo que se revela à nossa experiência. Não temos o condão mágico de enxergar a essência substancial das coisas. Elaboramos os nossos conhecimentos a partir do que dos objetos nos revelam as experiências sensoriais. Podemos nos elevar até as generalizações teóricas, partindo da experiência, mediante a organização dos dados fenomênicos com a ajuda das idéias puras do entendimento. Não criamos, portanto, a realidade. Apenas a formatamos, de acordo com a estrutura ontognosiológica da nossa razão.

3 - O nosso entendimento é apenas faculdade ordenadora do real. Com este princípio exposto na Crítica da Razão Pura, o filósofo de Königsberg dividiu, com Platão, o mérito de ter formulado uma das duas perspectivas filosóficas que balizam a filosofia ocidental: a crítica ou transcendental, sendo que o pensador grego sistematizou, notadamente no seu diálogo Fédon, a perspectiva denominada realista ou transcendente.
4 - A partir da perspectiva transcendental, Kant deu embasamento epistemológico à nova física de Newton. Podemos dizer que Kant tirou a ciência moderna da enrascada em que tinha sido colocada pela tentativa de explicação substancialista. Se, segundo é pressuposto por esta, nós enxergamos a essência da realidade, não se explica como, no que tange às teorias cosmológicas, a Humanidade embarcou durante séculos a fio (desde os Gregos até 1543, quando Copérnico formulou a hipótese heliocêntrica) na canoa furada do Cosmo geocêntrico. No contexto da explicação kantiana, a mudança de paradigma cosmológico é de fácil explicação: passou-se, com Newton, de uma apreciação do fenômeno a uma outra, mais compatível com a experiência e os dados matemáticos. Nada de dogmatismo realista. Instalou-se, na filosofia da ciência, uma saudável relatividade quanto à necessidade de consultar os dados da experiência, sempre passível, aliás, de novas representações. À luz da perspectiva kantiana, Karl Popper, no século XX, definiu a certeza científica como afirmação probabilística, capaz de ser refutada. Afirmações passíveis de serem discutidas pela comunidade científica e verificadas por ela, essas são as assertivas científicas. Longe ficaria o neokantismo do dogmatismo positivista, que pretenderá uma certeza dogmática para a ciência, a partir de fatos apreensíveis de uma vez para sempre.

5 - A herança kantiana foi definitiva, também, em dois outros terrenos: o da ética e o da política. No que tange ao primeiro campo, Kant formulou, pela primeira vez, uma moral racional, mediante a tradução, em rigorosos conceitos filosóficos, dos postulados religiosos em que até então se alicerçava a moral. Na sua Fundamentação da metafísica dos costumes, o mestre de Königsberg traduziu o cerne da moral judaico-cristã, o mandamento da caridade, neste imperativo categórico: “Age de tal forma que trates a pessoa humana sempre como fim e nunca como meio”. Tornou-se possível, assim, uma moral racional, que incorporou o rico legado da tradição judaico-cristã, compatibilizando-o com a tradição helenística que valoriza a razão. Já no que tange à política, o pensador alemão formulou, no seu opúsculo intitulado A paz perpétua, o que seria o princípio básico da moral pública, ou princípio da “transparência”, que reza assim: “Age sempre de tal forma que os motivos de tua ação possam ser divulgados aos quatro ventos”. Esse princípio tornou-se o centro irradiador de luz para a ação política, tanto no plano nacional quanto no terreno internacional. A melhor forma de manter a credibilidade de um governo é, à luz do princípio kantiano, mantendo a transparência perante a comunidade. E, no terreno internacional, a garantia da paz entre  as nações consiste em não esconder cartas na manga, explicitando, perante a comunidade dos povos, os móveis da ação dos Estados. Utopia? Talvez. Mas a aproximação desse ideal é a que, certamente, tem garantido os clarões de paz na noite dos conflitos. Mais uma vez, o genial pensamento do filósofo de Königsberg tornou-se semente fecunda da civilização ocidental, neste conturbado início de milênio.

6 – No que tange, especificamente, à Teoria do Conhecimento, Kant sistematizou a forma em que podemos efetivar juízos de validez universal. Enveredou pelo caminho que já tinha sido assinalado por Aristóteles: os nossos conhecimentos completos expressam-se em juízos e estes se traduzem na linguagem. Ora, quais seriam, nesta, os tipos de juízos (ou afirmações) possíveis?  - Esses juízos seriam de dois tipos: analíticos e sintéticos. Nos primeiros, o predicado já se encontra no sujeito, constituindo apenas uma explicitação tautológica. Quando digo, por exemplo: “O homem é um animal racional”, no sujeito (homem) já está contido o predicado (animal racional). A definição aristotélica seria, portanto, uma tautologia. Portanto, com juízos analíticos não aumento os meus conhecimentos. Restam os juízos sintéticos, aqueles nos quais o predicado não está contido no sujeito. Estes são de dois tipos: juízos sintéticos a-posteriori (referidos à experiência sensível, sempre individual e não generalizável, como quando afirmo: “o sorvete de morango está gostoso”), e juízos sintéticos a-priori (referidos à experiência – que nos fornece os objetos da intuição sensível em geral -, organizada a partir de categorias ou conceitos puros do entendimento e universalmente válidos para todos os sujeitos cognoscentes, como quando Newton afirma, no terceiro axioma da sua obra Philosophiae naturalis principia mathematica: “Toda ação é acompanhada de uma reação do mesmo tamanho e de direção oposta”).

7 – A partir da análise dos nossos juízos sintéticos a-priori, Kant deduz as categorias correspondentes a eles, no procedimento por ele identificado, na Crítica da Razão Pura, como “dedução transcendental das categorias”, na verdade, uma “indução” delas. Essa dedução é efetivada levando em consideração o seguinte princípio, explicitado nestes termos pelo próprio Kant: “Originam-se tantos conceitos puros do entendimento, referidos a-priori a objetos da intuição em geral, quantas [forem] as funções lógicas em todos os juízos possíveis que há na tábua [a seguir]; pois o entendimento esgota-se totalmente nessas funções e a sua capacidade mede-se totalmente por elas” [Crítica da Razão Pura, tradução de Manoela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, Lisboa: Calouste Gulbenkian, 4ª edição, 1997, p. 110].

8 – Tábua dos Juízos sintéticos a-priori possíveis. A respeito, afirma Kant: “Se abstrairmos de todo o conteúdo de um juízo em geral e atendermos apenas à simples forma do entendimento, encontramos que nele a função do pensamento pode reduzir-se a quatro rubricas, cada uma das quais contém três momentos. Podem comodamente apresentar-se na seguinte tábua: 1. Quantidade dos juízos: Universais,  Particulares, Singulares; 2. Qualidade: Afirmativos, Negativos, Infinitos; 3. Relação: Categóricos, Hipotéticos, Disjuntivos; 4. Modalidade: Problemáticos, Assertóricos, Apodícticos”. [Crítica da Razão Pura, edição Gulbenkian, 1997, p. 103-104].

9 – Tábua das Categorias. A partir da Tábua dos Juízos sintéticos a-priori possíveis, Kant deduz (infere) a seguinte Tábua das Categorias (ou Conceitos Puros do Entendimento): “1. Da Quantidade: Unidade, Pluralidade, Totalidade; 2. Da Qualidade: Realidade, Negação, Limitação; 3. Da Relação: Inferência e subsistência (substantia et accidens), Causalidade e dependência (causa e efeito), Comunidade (ação recíproca entre o agente e o paciente). 4. Da Modalidade: Possibilidade – Impossibilidade, Existência – Não-existência, Necessidade – Contingência”. [Crítica da Razão Pura, edição Gulbenkian, 1997, p. 110-111]

10 – Partes da Crítica da Razão Pura: Kant dividiu a sua obra em três partes, consistentes: 1. na Estética Transcendental (onde trata acerca do modo em que os dados da experiência sensível são organizados, no espaço e no tempo, pelas Formas a-priori da sensibilidade, com o auxílio do Esquema); 2. na Analítica Transcendental (onde trata acerca do modo em que o Entendimento elabora os conceitos, a partir dos dados fenomênicos, com a finalidade de construir os Juízos sintéticos a-priori); 3. na Dialética Transcendental (onde analisa o “sonho da Razão”, consistente na atividade de elaborar juízos dialéticos sobre objetos puramente imaginários, elaborados a partir de conceitos não alicerçados diretamente na experiência. Esses objetos ideais seriam três: a imortalidade da alma, a ordem cósmica e a existência de Deus. Aqui ancoram as construções da Metafísica, bem como as várias representações da Arte e da Religião, que exprimem desiderata do sujeito pensante, mas não diretamente fenômenos correspondentes à experiência).

 O que é conhecer?

Kant inicia a obra “Crítica da Razão Pura” realizando uma distinção entre conhecimento puro e conhecimento empírico, e coloca a experiência como fonte ou princípio de todo o conhecimento humano. Analisando então essa afirmação podemos pensar que Kant por colocar a experiência como princípio do conhecimento é um filósofo empirista. No entanto, aprofundando um pouco mais na “Crítica da Razão Pura” veremos que não se trata de empirismo, mas sim de um criticismo. “Segundo o tempo, portanto, nenhum conhecimento em nós precede a experiência, e todo o conhecimento começa com ela”. (KANT, 1980 p. 23).Porém não significa que todo conhecimento se origine justa e unicamente da experiência. Vemos desenvolver na obra um confronto. De um lado estão os conhecimentos puros e de outro os conhecimentos empíricos. “Tais conhecimentos denominam-se a priori e distinguem-se dos empíricos, que possuem suas fontes a posteriori, ou seja, na experiência”. (KANT, 1980 p.23). Para compreendermos o tema dos juízos é necessário que compreendamos a base da “Crítica da Razão Pura”. Quando Kant distingue dois tipos de conhecimento, que a princípio se denominam puro e empírico, ele está dizendo que no processo do conhecimento temos um conhecimento que é independente da experiência e que está ligado à abstração; esse conhecimento denominamos puro, destarte este possui suas fontes a priori. Em contrapartida, trata de um outro conhecimento que possui suas fontes a posteriori, ou seja, na experiência; este denominamos empírico.

Feita esta distinção, podemos chegar à conclusão de que os conhecimentos a priori são aqueles que independem totalmente da experiência e os a posteriori são aqueles que se dão por meio da experiência. No entanto, encontramos nos conhecimentos a priori uma problemática: as proposições só podem ser consideradas puras quando nelas não é constatado nada de base na experiência. Para esclarecer esta situação, vejamos o que Kant exemplificou: “Assim, por exemplo, a proposição: cada mudança tem sua causa, é uma proposição a posteriori, só que não pura, pois mudança é um conceito que só pode ser tirado da experiência”. (KANT, 1980 p. 24). Sobre a experiência ele esclarece: A experiência jamais dá aos seus juízos universalidade verdadeira ou rigorosa, mas somente suposta ecomparativa (por indução), de maneira que temos propriamente que dizer: tanto quanto percebemos até agora, não se encontra nenhuma exceção como possível, então não é derivado da experiência, mas vale absolutamente a priori. (KANT, 1980 p. 24).

Antes de tratar mais especificamente sobre o tema dos juízos, Kant já prenuncia que no conhecimento humano existem juízos que ele disse serem necessários e universais, logo são puros a priori. Um exemplo claro disso são as proposições matemáticas. Quando digo que (2+2=4) não preciso passar pelo dado da experiência para poder chegar a tal conclusão. Os conhecimentos a priori, puros, são indispensáveis, eles se fazem presentes em nossa faculdade de conhecer. “quando suprimirdes do vosso conceito empírico de um objeto corpóreo ou incorpóreo todas as propriedades ensinadas pela experiência, não podereis tirar-lhe aquela pela qual o pensais como substancia ou como aderente a uma substância” (KANT, 1980 p. 25).

Os juízos analíticos e sintéticos

Na “Crítica da Razão Pura”, Kant vai analisar o valor dos conhecimentos puramente racionais, através de sua revolução copernicana vai colocar em questão não mais o objeto do conhecimento, mas sim como se dá o processo humano de conhecimento. Nesta obra Kant propõe uma filosofia transcendental. Com a revolução de Kant não mais o objeto é o centro do conhecimento, mas sim o sujeito cognoscente. Destarte, para trilhar tal caminho parte da distinção entre: juízos analíticos e sintéticos. “Juízos analíticos (os afirmativos) são, portanto, aqueles em que a conexão do predicado com o sujeito for pensada por identidade; aqueles, porém, em que essa conexão for pensada sem identidade, devem denominar-se juízos sintéticos” (KANT, 1980 p. 27).

Kant é um pensador metódico, de forma que podemos afirmar: os juízos analíticos independem da experiência; se independem da experiência podemos afirmar que são então a priori; se são a priori não podem ser conhecidos, ou não geram conhecimento. Foi por isso que Kant também os denominou como “juízos de elucidação”, ou seja, esclarecem ou tornam claro tal conhecimento, mas não geram. Por esta razão é que neste juízo o predicado já está contido no sujeito.

Em contrário, os juízos sintéticos dependem da experiência; se dependem da experiência, logo são a posteriori. Ao contrário dos juízos analíticos, estes ampliam nosso conhecimento, produzem conhecimento, por isso é que Kant também os denominou como “juízos de ampliação”, porém estes não são universais, pois derivam da experiência. Depois desta primeira distinção nos deparamos com um problema: de um lado estão os juízos analíticos que não podem ser conhecidos; de outro lado estão os juízos sintéticos que podem ser conhecidos mas não são universais. Sobre qual juízo se fundamenta a ciência do conhecimento? Qual saída para essa difícil questão?

Sobre tais princípios sintéticos, isto é, princípios de ampliação, repousa todo o objeto ultimo do nosso conhecimento especulativo a priori; os princípios analíticos são, na verdade, altamente importantes e necessários, mas só para chegar àquela clareza dos conceitos exigida para uma síntese segura e vasta ao invés de uma aquisição realmente nova. (KANT, 1980, p. 28).A saída apresentada por Kant é notável. Segundo ele, o objeto do nosso conhecimento especulativo repousa sobre os princípios sintéticos. Porém, ressalta ele que estes princípios sintéticos devem ser a priori. “A ciência se baseia em um terceiro tipo de juízo, ou seja, no tipo de juízo que, a um só tempo, une a aprioridade, ou seja, auniversalidade e a necessidade, com a fecundidade, e portanto a ‘sinteticidade’” (REALE, 2005, p. 357). Destarte, vemos então a necessidade de se formular um juízo que fundamente a ciência e o conhecimento, porém que seja possível de ser conhecido e universalizado. Ora esse juízo será então o juízo sintético a priori. Sobre este é que deve se fundamentar o conhecimento humano.

 Considerações finais

Diante do dilema criado pelos juízos analíticos e sintéticos, Kant apresenta um importante caminho para fundamentar o conhecimento humano: os juízos sintéticos a priori. Aos poucos durante o desenrolar da “Crítica da Razão Pura” Kant vai então realizando uma grande mudança no campo da teoria do conhecimento. A distinção dos juízos analíticos e sintéticos e o apontamento dos juízos sintéticos a priori como fundamento do conhecimento apresentados no início da obra abrem caminho para a grande revolução copernicana de Kant e para uma análise dos conhecimentos, ou melhor, do modo como o homem conhece.


Referências
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Trad. Valério Rohden e Baldur Moosburger. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os Pensadores).
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: de Spinoza a Kant, v. 4. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2005.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O EMPIRISMO DE HUME E O CETICISMO CIENTIFICO

1  Biografia e Contexto Histórico

David Hume(Edimburgo, Escócia, 7 de maio de 1711 - Edimburgo, Escócia, 25 de agosto de 1776) foi um filósofo, historiador, economista e ensaísta escocês, conhecido principalmente por seu empirismo filosófico e ceticismo. É o principal filósofo da corrente de pensamento empirista moderna e um dos autores mais importantes da história da filosofia ocidental e do Iluminismo escocês. Seu pai era um fidalgo da aldeia de Chirnside, e dono de um sítio chamado Ninewells. Aos doze vai para Edimburgo junto com o irmão para estudar, adquirindo uma sólida formação cultural. Manifesta gosto pela filosofia e em 1734 vai para França, onde escreve o seu Investigação sobre a Natureza Humana, tratado considerado por muitos a sua melhor obra, apesar de ser muito jovem à época. Retorna à Grã-Bretanha três anos depois, e ocupa vários cargos públicos, inclusive o de secretário de Estado, em 1768. Antes, entre 1763 e 1765, serve na França como secretário da embaixada inglesa. Ao ser nomeado bibliotecário do colégio de advogados de Edimburgo, escreve uma História de Inglaterra, que publica pouco a pouco. e que lhe rende alguma fortuna e fama. Ao falecer, revelou extraordinária tranqüilidade diante da morte.
A obra de Hume está concentrada no objetivo de implantar nas ciências morais a posição metodológica defendida por Isaac Newton no domínio da astronomia e da física. Suas ideias encontram raízes no empirismo de Locke bem como no idealismo de Berkeley. Hume propõe que todo conhecimento parte e deriva dos sentidos, opondo-se ao racionalismo cartesiano, que entende que o conhecimento está diretamente ligado à razão. As ideias de Hume passam a ser conhecidas pelo nome de empirismo psicológico, cuja consequência é o empirismo lógico. Uma palavra só é significativa se tem um correspondente no mundo. No uso nominal, precisamos da base empírica. Através das impressões criamos imagens (vale dizer quimeras) que não existem no mundo material, como por exemplo, a imagem de um anjo, que necessariamente deve ser composta para que tenhamos acesso à ideia em si.
A percepção pura, o sentir, o primeiro contato com o mundo, como uma criança o tem antes de desenvolver a mente, tudo isso são impressões. Através da representação o sujeito forma a ideia, reflexo da impressão, uma cópia pálida, até uma deturpação da percepção bruta. Um exemplo de impressão é uma noção simples como perceber a tristeza. Um exemplo de ideia seria um anjo. Todas as ideias válidas têm fundamento na impressão. A base do conhecimento são as impressões e relações entre as ideias, como as associações.

 2.      Filosofia Empírica

O empirismo é uma doutrina filosófica que tem como principal teórico o inglês John Locke (1632-1704), que defende uma corrente a qual chamou de Tabula Rasa. Esta corrente afirma que as pessoas nada conhecem, como uma folha em branco. O conhecimento é limitado às experiências vivenciadas, e as aprendizagens se dão por meio de tentativas e erros. Entende-se por empírico aquilo que pode ter sua veracidade ou falsidade verificada por meio dos resultados de experiências e observações. Teorias não bastam, somente através da experiência, de fatos ocorridos observadas, um conhecimento é considerado pelo empirista.
A percepção do Mundo externo e a abstração da realidade realizada na mente humana são o que faz o homem adquirir sabedoria, segundo o empirismo. Embora tenha se baseado no cartesianismo de René Descartes, ao contrário deste, Locke não aceita a existência de idéias inatas resultantes da capacidade de pensar da razão. Segundo a teoria de Locke (com a qual concordavam os demais empiristas), a razão, tem a função de organizar os dados empíricos, apenas unir uns dados aos outros, que lhe chegam através da experiência. Segundo Locke, “nada pode existir na mente que não tenha passado antes pelos sentidos”, ou seja, as ideias surgem da experiência externa (via sensação), ou interna (via reflexão), e podem ser classificadas em simples (como a ideia de largura, que vêm da visão) ou compostas (a idéia de doença, resultado de uma associação de ideias).
Nesse sentido, qualquer afirmação de cunho metafísico era rejeitada no Empirismo, pois para essas afirmações não há experimentação, testes ou controles possíveis. Outro importante teórico empirista foi o escocês David Hume (1711-1776), que contribuiu com a epistemologia ao discutir o princípio da causalidade. Segundo Hume, não existe conexão causal, e sim uma sequência temporal de eventos, que pode ser observada. Além de John Locke e David Hume, outros filósofos que são associados ao empirismo são: Aristóteles, Tomás de Aquino, Francis Bacon, Thomas Hobbes, George Berkeley e John Stuart Mill. O empirismo causou uma grande revolução na ciência, pois graças à valorização das experiências e do conhecimento científico, o homem passou a buscar resultados práticos, buscando o domínio da natureza. A partir do empirismo surgiu a metodologia científica.

3.       Sinopse sobre o livro

Na obra Investigação Sobre o Entendimento Humano, escrita em 1748, a primeira preocupação do escocês David Hume (1711-1776) é a investigação em torno das ideias. Como um empirista chega a esta conclusão: tudo o que contém nossa mente são percepções. O grau de intensidade com que estas percepções se manifestam em nossa mente estabelece uma distinção: as percepções poderão ser impressões e ideias. As impressões, percepções básicas, são captadas imediatamente e a elas pertencem as sensações, as emoções e as paixões. As ideias, por sua vez, são cópias ou representações desvaídas das impressões da mente, e guardam certa semelhança com as impressões, pois na realidade vêm a ser imagens mentais geradas pelas mesmas.A obra do filósofo e historiador Hume exerceu grande influência nos iluministas franceses e alemães. Basta recordar a dívida que Kant diz ter contraído com o ceticismo de Hume, no que identificou o famoso “acordar do sonho dogmático”. Entretanto, sua influência decaiu por causa das críticas de superficialidade que a filosofia romântica fazia contra o empirismo. Mas seguiu muito viva na Inglaterra e exerceu bastante influência nos Estados Unidos. A verdadeira aceitação histórica de Hume, no entanto, começou no final do século XIX. 

4.      Mundo dos Fenômenos e as Percepções

David Hume nasceu em Edimburgo, em 1711, foi filósofo, historiador, ensaísta. Este importante pensador escocês e empirista aponta para “um novo cenário do pensamento”, em sua obra Tratado da natureza humana (1739- 1740), ao introduzir o método experimental do raciocínio nos assuntos morais. Embasou-se na observação e na aplicação do método experimental baconiano à natureza humana, ao sujeito do conhecimento. Esta ciência é vista como a mais importante, pois as outras ciências guardam com ela uma relação de dependência.Um dos objetivos de Hume é encontrar os limites do conhecimento humano – os quais vão se revelar na experiência. A experiência passa a ter lugar central na filosofia do século XVIII e, principalmente na filosofia de Hume pelo fato de passar a fundamentar as ciências e, ainda, por ser reduzida à princípios. A fim de apresentar os princípios do processo de conhecimento, o filósofo descreve o funcionamento da mente através de noções como: percepções, impressões, ideias, hábitos, sensações, emoções, experiência etc. Como tais noções são de suma importância para o pensamento em questão, realizaremos uma breve abordagem da teoria epistemologia humeana e destes conceitos. Tomaremos por objetos principais as noções de percepção, experiência e hábito, mas também apontaremos a relação destas entre si e com os outros principais conceitos da epistemologia humeana. Para tal, concentramo-nos nas obras Investigações sobre o entendimento humano (1748)  e  Tratado da natureza humana (1739- 1740), pois nelas centram-se nossos objetos de análise.
Um dos princípios mais importantes da ciência da natureza humana de Hume, apresentada tanto no Tratado da natureza humana e na Investigação sobre o entendimento humano, é o princípio de que todo o conhecimento relativo ao mundo embasa-se em percepções, nas experiências. As percepções são definidas como fenômenos que se dão no espírito humano (mente) através da sensação interna ou externa. As percepções garantem a existência do objeto, já que ele só é percebido quando existe. As percepções são distintas umas das outras e também se ligam entre si através da relação de semelhança.
São considerados os conteúdos da mente humana e dividem-se em duas classes: “impressões” e “ideias”. Aquelas são sensações mais vívidas e fortes advindas da experiência, são emoções e paixões (origem interna), e sensações (origem externa) percebidas de modo imediato. Segundo Hume, as impressões são “nossas percepções mais vívidas, sempre que ouvimos, ou vemos, ou sentimos, ou amamos, ou odiamos, ou desejamos ou exercemos nossa vontade (HUME, Investigação sobre o entendimento humano, p. 34)”. Tais impressões podem, ainda, ser de dois tipos: impressões externas (ligada às sensações) ou impressões internas (ligadas à reflexão, às emoções e paixões). O termo “impressão”, segundo o filósofo, significa a própria impressão, o que restringe sua teoria ao campo fenomênico – por tratar das percepções enquanto tais e não questionar como as impressões são produzidas na mente humana ou espírito.
As ideias são concebidas como cópias das impressões, sendo que as tem como base e origem. Todavia, são cópias menos vívidas e fortes – por tal motivo, não podem ser confundidas com as impressões. São ideias o pensamento e o raciocínio. Distinguem-se em ideias simples e ideias complexas: as ideias simples são cópias de alguma impressão e, como tendem a se agregarem entre si, formam as ideias complexas. Estas, por sua vez, são associações de ideias simples através dos princípios ou de semelhança, ou contiguidade no tempo e no espaço ou de causalidade; ou ainda, são formadas pela imaginação. Os princípios que originam a associação de ideias na mente também fazem com que a mente seja transportada de uma ideia a outra. Segundo Hume, estes são os princípios de coesão, de união entre as ideias simples. Estas, na imaginação, assumem o lugar de conexão indissolúvel – que as une na memória. Deve-se ter em mente que a realidade das ideias, tanto simples quanto complexas, dependem de terem impressões correspondentes.
Como se sabe, a realidade da ideia depende de uma impressão que lhe corresponda, da qual se origine. Ao utilizar-se das faculdades do pensamento, da imaginação e da memória, o homem tem em sua mente imagens imperfeitas.  Como aponta Hume, a imaginação e pensamento se originam através dos sentidos e ligam-se, pois, de modo intrínseco à experiência. Assim, pode-se notar que a distinção entre sentir e pensar se centra quanto ao grau de intensidade, já que sentir é ter percepções mais vívidas, sensações; enquanto pensar consiste em ter percepções mais fracas, ou seja, as ideias. Este ponto justifica a duplicidade de toda percepção: “Ela é sentida de maneira vívida como impressão e é pensada de maneira esmaecida como ideia” (CONTE, 2010, p. 213).
A ordem e a sucessão temporal das impressões e das ideias também consistem em pontos que as diferenciam. Com a finalidade de encontrar qual é a ordem da dependência, Hume toma a ordem da primeira aparição da percepção. É através da experiência constante que as impressões simples sempre precedem as ideias que lhes correspondem, haja vista que tal ordem não pode ser invertida.  Logo, o primeiro princípio da ciência da natureza humeana é formulado: “Todas as nossas ideias simples, em sua primeira aparição, derivam de impressões simples, que lhe correspondem e que elas representam com exatidão” (HUME, Tratado da Natureza Humana, 2001, p. 28).
A anterioridade das impressões, enquanto um princípio da natureza humana, é comprovadas pelo filósofo através de dois argumentos. O primeiro argumento expõe que, ao analisar as ideias compostas do homem, sempre se descobre que elas se decompõem em ideias simples copiadas de uma impressão anterior: “se analisamos nossos pensamentos ou ideias, por mais compostos ou sublimes que sejam, sempre verificamos que se reduzem a ideias tão simples como eram as cópias de sensações precedentes. Mesmo as ideias que, à primeira vista, parecem mais distantes desta origem mostram-se, sob um escrutínio minucioso, derivadas dela (IEH,Seção II)”. Portanto, cada ideia complexa tem suas ideias simples ligadas umas às outras, conforme uma sequência lógica – a qual nem sempre é evidente.
O segundo argumento aponta que quando o homem tem defeitos em algum órgão sensorial, não pode formar as ideias correspondentes às impressões por não receber determinado tipo de impressão, o que implica, pois, que a ausência de estímulos nos órgãos dos sentidos ou a falta de algum deles acarreta a falta de ideias na mente. A anterioridade das impressões como princípio da ciência humeana rebate a tese das ideias inatas, considerando-se que: o homem só tem ideias após ter impressões, e que se deve considerar as impressões como originárias.
Após o estabelecimento do primeiro princípio de sua ciência, o filósofo distingue, mais uma vez, impressões e ideias: as impressões e também as ideias podem ser simples ou complexas e as ideias. Ideias simples e também as impressões simples não podem ser separadas, e por isso, não podem ser analisadas. As impressões complexas são compostas por várias impressões simples, podendo, pois, serem subdivididas e analisadas. Elas nos são dadas de imediato como complexas. As ideias complexas, por sua vez, são cópias das impressões complexas ou ainda podem ser o produto de diversas combinações ocorridas na mente humana.

5.      Ideias e Impressões

Tendo como elementos principais de seu pensamento as impressões e as ideias, David Hume nos apresenta alguns pontos importantes relacionados às mesmas. A impressão é sempre um dado da experiência e uma presença imediata, por serem percepções originais, elementos primeiros da experiência, sendo estas percepções fortes. As ideias são percepções que constituem o nosso pensamento, a nossa imaginação, podendo parecer de alguma forma reflexos das impressões, de modo que todas as percepções da mente são duplas, ou seja, aparecem como impressões ou com ideias.
A partir daí surge o primeiro princípio da filosofia de Hume, portanto, chamado de princípio da cópia, ou seja, as ideias nunca podem chegar a alcançar o grau de conhecimento alcançado pelas impressões, por serem cópias da mesma. Um exemplo disto é uma fotografia que alguém tira de uma fazenda em João Pessoa, isso seria a impressão, enquanto alguém ao reproduzir esta fotografia em forma de desenho seria, pois, a ideia. Quando refletimos sobre nossas sensações e impressões passadas, nosso pensamento é um reflexo fiel e cópia desses objetos com vivacidade, porém as cores que emprega são fracas e embaçadas em comparação com aquelas que revestiam nossas percepções originais (HUME, 1996, p. 35). Nada existe previamente no pensamento, ou seja, todas as nossas idéias possuem uma origem empírica, portanto Hume rejeita totalmente a existência de idéias inatas, estando de acordo com a teoria de Locke: a idéia é um dado secundário (a posteriori) resultado da imaginação.
Existem impressões e idéias simples e complexas. As simples são indivisíveis enquanto que as complexas são agrupáveis e divisíveis, ou seja, percepções ou impressões e ideias simples são aquelas que não admitem distinção ou separação. As complexas, ao contrário daquelas, podem ser distinguidas em partes. A divisão dos conceitos mentais entre simples e complexa mostra que é possível isolar qualquer qualidade sensível que esteja porventura unida numa mesma percepção, decompondo-a nas várias sensações que a constituem. A decomposição das percepções complexas em elementos simples indica, em primeiro lugar, um limite da análise empirista. Ao analisar uma percepção usando o exemplo da maçã, podemos distinguir idéias ou impressões simples em elementos como a cor, a forma e o sabor e complexas a maçã em si a qual posso dividir em várias partes simples e indivisíveis. Todas as impressões e ideias complexas, portanto, derivam das simples. Hume chega a conclusão de que, se as impressões antecedem sempre as idéias, não há verdades necessárias a priori, porque tudo vem ou parte da experiência, ou seja, só podemos conhecer ou construir conhecimento a partir da experiência.
É devido à diferença e a separação que Hume poderá postular outro princípio geral da ciência da natureza humana: a liberdade da imaginação, ou seja, onde quer que a imaginação perceba uma diferença entre ideias, ela pode facilmente produzir uma separação, pois, esta tem a liberdade de poder variar. O poder que é atribuído a imaginação é, pois, a prova de existência de ideias complexas, porque só a partir da possibilidade de separá-las é que a imaginação consegue criar novas ideias sem impressão diretamente correspondente. A liberdade da imaginação explica o modo como são formadas todas as ideias fictícias que o homem consegue conceber, sendo que estas ficções não possuem correspondência estrita com quaisquer impressões dos sentidos. Dizer, pois, que a imaginação do homem é livre, não significa afirmar que ele desfruta de poderes absolutos, pelo contrário, a capacidade combinatória que a caracteriza está longe de ser ilimitada.
Entretanto, embora nosso pensamento pareça possuir esta liberdade ilimitada, verificaremos, através de um exame mai minucioso que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência. (HUME, 1996, p. 36). Portanto, é notório que os materiais do pensamento são derivações de nossas sensações externas ou internas, ou seja, o que há no pensamento são apenas sensações que abstraímos de vários objetos, e, de modo criativo formamos diversas combinações. Sendo que as combinações formadas possuem dependência do espírito e da vontade que as organizam.

6.      Relações de Ideias e Questão de Fato

Todos os objetos da razão ou investigação humanas podem naturalmente dividir-se em duas classes, a saber, Relações de Ideias e Questões de Facto.
Do primeiro tipo são as ciências da Geometria, Álgebra e Aritmética e, em suma, toda a afirmação que é intuitiva ou demonstrativamente certa. Que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos dois lados é uma proposição que exprime uma relação entre estas figuras. Que três vezes cinco é igual à metade de trinta expressas uma relação entre estes números. Proposições deste tipo podem descobrir-se pela simples operação do pensamento, sem dependência do que existe em alguma parte no universo. Ainda que nunca tivesse havido um círculo ou um triângulo na natureza, as verdades demonstradas por Euclides conservariam para sempre a sua certeza e evidência.
               As questões de facto, que constituem os segundos objetos da razão humana, não são indagadas da mesma maneira, nem a nossa evidência da sua verdade, por maior que seja, é de natureza semelhante à precedente. O contrário de toda a questão de facto é ainda possível, porque jamais pode implicar uma contradição, e é concebido pela mente com a mesma facilidade e nitidez, como se fosse idêntico à realidade. Que o Sol não se há-de levantar amanhã não é uma proposição menos inteligível e não implica maior contradição do que a afirmação de que ele se levantará. Por conseguinte, em vão tentaríamos demonstrar a sua falsidade.

7.      Hábito

Para o filósofo David Hume, o nosso conhecimento do mundo se dá por meio de percepções. Ele as subdivide em impressões e ideias. As primeiras, as impressões, são as percepções atuais que temos das coisas e do mundo, são portanto, fortes e mais vivas. Enquanto as ideias são fracas e menos vivas porque geralmente são cópias das impressões. Segundo o filósofo esta diferenciação é fácil para nós, pois facilmente distinguimos entre sentir e pensar. O modo como a impressão ocorre na mente é forte, e tem também um efeito peculiar. Uma impressão não é meramente pensada, mas acreditada. A força e a vivacidade significam o modo como aparece a percepção na mente e o efeito que causa à mente.
Exemplificando, posso ir ao museu e ver uma pintura de Picasso. Neste caso, enquanto vejo a pintura, tenho a impressão da pintura; trata-se de uma percepção forte e viva. Mas numa conversa com um amigo, na qual me lembro da minha visita ao museu e lhe descrevo a minha percepção da pintura, trata-se de uma ideia, uma percepção fraca e menos viva. De acordo com Hume, todo o nosso conhecimento é baseado em nossas experiências. Por isso, ele vai dizer que determinadas conclusões que chegamos sobre o mundo e as coisas não são fundamentadas na razão, mas no hábito. O fato de vermos todos os dias uma relação entre A e B, por exemplo, faz com que toda vez que vemos A, lembremo-nos de B. Além disso, o nosso conhecimento é fundamentado em relações causais, ou melhor, na causalidade; que é a ideia segundo a qual todo efeito deve ter uma causa. Nossas certezas sobre o futuro devem-se à nossa crença no hábito. Acostumamo-nos a ver que o Sol nasce todos os dias. Logo, concluímos que ele nascerá também amanhã e no futuro. Ou seja, este conhecimento é fundamentado numa crença que obtemos pela regularidade com que as nossas experiências se repetem, produzindo o hábito ou o costume. Desse modo, podemos concluir em breves palavras que para Hume a nossa mente é um feixe de percepções, pois todas as nossas ideias têm origem na impressão sensível; e que não estamos diante de uma conexão necessária na relação entre causa e efeito, mas diante de uma associação baseada na regularidade de eventos que ocorrem na experiência.
Estamos diante de uma explicação bastante plausível do funcionamento da mente humana que nos faz pensar sobre os motivos ou razões pelas quais adotamos determinadas crenças ou opiniões sobre nós mesmos e sobre o mundo. Fundamentamos nosso conhecimento somente na razão ou na experiência? O nosso conhecimento é racional ou é apenas uma crença em regularidades? Descobrir esta explicação da mente humana muda ou compromete o nosso modo de ver o mundo?

8.      Causa Efeito

“Todos os nossos raciocínios relativos a questões de facto, defende Hum ríamos descobrir que é explosiva; é preciso experiência para saber que o fogo queima as coisas. Mesmo as mais simples regularidades da natureza não poder estabelecidas a priori porque uma causa e um efeito são dois acontecimentos totalmente diferentes e um não pode ser inferido do outro. Vemos uma bola de bilhar a mover-se na direção de outra e esperamos que transmita movimento à outra. Mas por quê? A resposta, obviamente, é que descobrirmos as regularidades da natureza através e, se baseiam na relação de causa e efeito. Mas como chegamos ao nosso conhecimento das relações causais? (…) Ao olhar apenas para a pólvora, nunca pode da experiência. Mas Hume leva a sua indagação mais além. Mesmo depois de termos a experiência das operações de causa e de efeito, pergunta, que bases existem na razão para inferir conclusões dessa experiência? A experiência apenas nos dá informação sobre ocorrências passadas: porque haveria de ser alargada a objetos futuros, que, tanto como sabemos? s, só se assemelham aos objetos passados azul passagens na aparência o pão alimentou-me no passado, mas que razões tenho para acreditar que o irá fazer no futuro?" Anthony Kenny, Ascenção da Filosofia moderna, Edições Gradava, Lisboa 2011, págs. 170-171.
A crença nas superstições implica estabelecer nexos causais entre acontecimentos diferentes que não têm qualquer relação entre si. Por exemplo: Vi um gato preto na rua (causa) e, logo a seguir, parti um pé (efeito). Tive negativa no teste de Filosofia (efeito) porque este foi realizado numa sexta-feira, dia 13 (causa). Esta crença em causalidades fictícias tem um fundamento subjectivo (é uma crença irracional do sujeito) e não se baseia nem na experiência nem na razão. Segundo Hume, as relações causais efectuadas no âmbito do quotidiano e da ciência dependem de factores psicológicos como o hábito e não têm, por isso, uma justificação racional ou empírica. Assim sendo, no âmbito do conhecimento vulgar e do científico, adquirimos a crença que a água vai aquecer com base na experiência passada. Como é que podemos refutar esta ideia defendida por Hume? Será que podemos mostrar que as explicações científicas estão racionalmente justificadas?

9.      Critica de Hume a Metafísica

Hume critica todo o discurso metafísico acerca dos fenômenos que se dão no mundo e, mais que isso, propõe que há uma inadequação entre a linguagem e objeto ao qual esta se refere. Na verdade, reside aqui uma acusação contra a linguagem metafísica, acusação que expõe o fracasso desta. Como se pode notar, a filosofia empirista humana visa dissolver o paradigma filosófico platônico-cartesiano e cristã da cisão entre sensível e suprassensível. Há, pois, a desconfiança da linguagem e da razão, de modo que e o ceticismo presente em sua filosofia faz-se evidente.
A palavra verdadeira encontra-se, pois, no mundo, contrariamente ao que foi concebido pela metafísica: “Se o que ajuizamos no conhecimento não esgota o que é o mundo, infelizmente não há uma alternativa epistemológica possível para esse fracasso constatado” (BARBOZA, 2011, p. 15). Assim, não há a palavra revelada. O ceticismo humano mostra-se quando o filósofo não dá continuidade à oposição entre sensível e Inteligível e toma-a como destituída de sentido.
A tradição idealista é criticada duramente, a ponto de Hume ganhar a inimizade de lógicos, metafísicos, matemáticos e teólogos. Não há, pois, nenhum conhecimento que possa discursar acerca de realidades que extrapolam a experiência. O filósofo escocês “desaprova os seus sistemas que se enredam em disputas meramente linguísticas, em contradições, em mal-entendidos de termos complexos que não passam de combinação de termos simples” (BARBOZA, 2011, p. 16). Ademais, filosofia humana não aceita entidades extramundanas, pois toda a realidade do mundo encontra-se nas impressões e em suas cópias.
Para solucionar esse problema, o filósofo apresenta sua primeira proposição acerca do conhecimento humano: todas as ideias do homem derivam de impressões – uma classe das percepções. As impressões originam-se, por sua vez, das sensações – experiência interna – ou dos sentimentos – experiência externa. Das impressões surgem as ideias e os pensamentos, ou seja, as ideias e os pensamentos são cópias pálidas das impressões, os quais são mantidos na imaginação – a qual pode juntar aparências e também formas incompatíveis – ou na memória. Os conteúdos da mente são impressões e ideias, sendo as primeiras mais vívidas do que as segundas.  A fim de compreender melhor o que Hume concebe por percepção, devemos ter em mente que sua divisão em: 1) impressões – as quais são percepções vívidas, são sensações externas e internas; e em 2) ideias ou pensamentos – os quais são percepções menos vívidas por serem cópias das impressões. Não obstante, as sensações externas são as advindas dos cinco sentidos e podem ser acompanhadas de sentimento; já as sensações internas referem-se aos sentimentos.
Os pensamentos, por sua vez, são cópias das impressões e ao estarem acompanhados de sentimentos, podem conceber novas impressões. Qualquer ato de conhecer extrai do mundo sensível todos os seus elementos. Logo, esta é a origem do conhecimento humano, segundo o filósofo escocês, e é através desta perspectiva que a oposição, herdada de Platão e também encontrada em Descartes, entre mundo sensível e Inteligível é revogada. Quando se reflete sobre sensações e impressões passadas, o pensamento do homem reflete fielmente e copia seus objetos com veracidade, todavia, essa cópia é menos vívida. Segundo Hume, não é necessária uma distinção advinda da metafísica para apontar a diferença existente entre impressões e pensamento. Este último pode se transportar para várias regiões do Universo e também para além deste.
Através do pensamento, aponta Hume: “Pode-se conceber o que ainda não foi visto ou ouvido, porque não há nada que esteja fora do poder do pensamento, exceto o que implica absoluta contradição” (HUME, 1999, p. 10). Portanto, a contradição é o caso no qual as ideias simples não derivam de impressões correspondentes. Ao determinar que o conhecimento vem das impressões, os limites deste e da linguagem são expostos: tudo o que pode ser expresso e conhecido acerca do mundo – sobre as questões de fato – limita-se ao que se fundamenta na experiência, limita-se ao que é fornecido pelo mundo aos nossos sentidos e sensações. Assim, qualquer discurso, seja físico ou metafísico, é concebido como uma combinação de pensamentos básicos embasados em impressões acerca do objeto, em determinados momentos. Desta combinação de termos que dizem de objetos perceptíveis, tem-se como resultado estruturas complexas de frase, fundamentadas em ideias simples as quais são oriundas do mundo sensível.
Não obstante, a realidade do mundo, de acordo com Hume, é composta pelas impressões e pelas cópias das impressões. Então, o filósofo expõe que os limites do pensamento e das faculdades do espírito são: combinar, transpor, aumentar ou diminuir os materiais adquiridos pela experiência e pelos sentidos. Não obstante, “Todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas; mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade. Assim, todas as ideias do homem ou percepções menos vívidas são cópias de suas impressões ou percepções mais vivas” (HUME, 1999, p. 11).
Dois argumentos são apresentados pelo filósofo a fim de provar que as ideias são cópias de nossas impressões – percepções mais vivas. O primeiro argumento refere-se à análise dos pensamentos ou das ideias do homem, e por mais compostos que se apresentem, sempre podem ser reduzidos à ideias simples, assim como as cópias de sensações prévias. Até as ideias como a de Deus, derivam das sensações que lhes são anteriores no processo de conhecimento.

 10.  O ceticismo cientifico de Hume

 O filósofo escocês David Hume tem um importante papel dentro da filosofia moderna. Empirista na linha de John Locke, para quem a mente seria uma tabula rasa, uma folha de papel em branco a receber impressões pela experiência sensível, concebe o conhecimento se dando de duas formas: impressões e idéias. As primeiras seriam percepções mais vivazes, enquanto as últimas seriam reflexões sobre as sensações, que nunca atingiriam o grau de vivacidade das impressões. Ao afirmar que todo conhecimento só se adquire empiricamente, Hume nega a possibilidade de uma ciência metafísica e seu ceticismo faz com que Kant declare, em sua Crítica da Razão Pura, que foi o filósofo escocês quem o fez despertar de seu "sono dogmático".

1. Da contingência das afirmações sobre os fatos

O projeto científico moderno se baseava na produção de um conhecimento universal e necessário. Tal foi a intenção de Descartes ao escrever o Discurso do Método.No entanto, Hume contesta a possibilidade deste tipo de conhecimento no que diz respeito aos fatos. A única forma de conhecimento que se pode ter sem uma experiência anterior seria o de um certo matiz de cor que faltasse numa gradação de matizes de uma mesma cor. Entretento, este exemplo é tão singular que não merece muita atenção do autor.Ele divide os objetos da razão entre relações de idéias e de fatos. No primeiro gênero estão todas as afirmações intuitivamente ou demonstrativamente certas, como as proposições da Geometria, Álgebra e Aritmética.
 São verdades cuja demonstração se mostra sempre certa e evidente, independentemente da existência de tais formas geométricas ou matemáticas na natureza.Já sobre o segundo gênero, o da relação dos fatos, não se pode chegar à mesma evidência que o primeiro. Para Hume, por mais evidência que se chegue sobre os fatos, seu contrário também não é contraditório, portanto, uma afirmação neste campo é contingente: "As questões de fato, que formam os segundos objetos da razão humana, não são verificáveis da mesma forma; e tampouco a evidência de sua verdade, por maior que seja, tem a mesma natureza da antecedente. O contrário de toda afirmação de fato é sempre possível, pois que nunca pode implicar contradição e é concebido pelo intelecto com a mesma facilidade e clareza, como perfeitamente conforme à realidade." (HUME: 1984, pp. 143-144)
Hume, então, dá um parecer de que todos os raciocínios sobre questões de fato se fundam na relação de causa e efeito:"Todos os raciocínios de fato parecem fundar-se na relação de causa e efeito. Só por meio dessa relação podemos ultrapassar a evidência de nossa memória e de nossos sentidos ( ... ). Todos os nossos raciocínios em torno de fatos são da mesma natureza. E aqui supomos constantemente que existe uma conexão entre o fato presente e o que dele inferimos". (HUME: 1984, p. 144). O conhecimento dessa relação entre dois fatos distintos não se faz a priori, mas é originado da experiência, quando se verifica que certos objetos se nos apresentam constantemente ligados uns ao outros. Assim, de um objeto desconhecido, mesmo depois de minuciosamente examinado, não se poderia saber suas causas ou efeitos. Para Hume, portanto, nunca se poderia, pela investigação racional, inferir um efeito de uma causa, uma vez que, como já foi citado anteriormente, seu contrário não é contraditório: "Numa palavra, pois: todo efeito é uma ocorrência distinta de sua causa. Não pode por isso, ser descoberto na causa, e sua primeira invenção ou concepção a priori deve ser inteiramente arbitrária. E mesmo depois de sugerido sua conjunção com a causa não parecerá menos arbitrária, visto existirem sempre muitos outros efeitos que devem parecer à razão, tão coerentes e naturais quanto esse. Seria em vão, pois, que pretenderíamos determirmr qualquer ocorrência particular ou inferir qualquer causa ou efeito sem o auxílio da observação e da experiência".(HUME: 1984, p. 145)
Aqui, portanto, se encontra um dado importantíssimo sobre a (im)possibilidade do conhecimento. Por mais que a razão se esforce, para Hume, o máximo que conseguiria é reduzir os princípios que produzem os fenômenos naturais à sua maior simplicidade, a um pequeno número de causas gerais por meio de raciocínios baseados na analogia, na experiência e na observação. E sobre essas causas gerais nada se conseguiria descobrir a não ser explicações particulares não satisfatórias. 2. O círculo vicioso da causalidade e a postura cética. Em Hume, a experiência passada fornece informações diretas e certas sobre objetos precisos situados num período determinado. A previsão de que isso vai se repetir no futuro exige um termo médio desconhecido. Em outras palavras, os argumentos de que se deve confiar na experiência passada para nosso juízo futuro são apenas prováveis, o que leva a um círculo vicioso:
"Dissemos (...) que todas as nossas conclusões experimentais partem da suposição de que o futuro será conforme o passado. Por conseguinte, tentar provar esta última suposição por meio de argumentos prováveis, ou seja, argumentos relativos à existência, é evidentemente girar num círculo vicioso e tomar como assente o próprio que está em debate." (HUME: 1984, pp. 147-148). O círculo vicioso a que se refere Hume pode ser entendido na necessidade de se ter a priori a certeza de que um mesmo efeito sempre se sucede a uma mesma causa, o que é arbitrário, e de que a natureza sempre se comporta da mesma maneira. No entanto, para afirmar o princípio da uniformidade da natureza, é preciso aplicar a lógica da indução, que como vimos, não tem fundamentação racional nenhuma além da crença de que o mesmo efeito se repetirá sempre que houver uma mesma causa.Tudo isso é afirmado para comprovar que o raciocínio é incapaz de chegar a alguma conclusão acerca das causas e efeitos dos fenômenos. Sobre isso, Hume assume a posição cética, mas não fechada ao conhecimento.

2. A introdução do conceito de probabilidade nas ciências

Para o filósofo escocês, todas as inferências derivadas da experiência são efeitos do costume e do hábito. É, portanto, da repetição de eventos que vêm acompanhados de outros que se pode inferir alguma relação entre os mesmos, por uma crença na continuidade desses eventos observados: " ( ... ) após descobrir, pela observação de muitos exemplos, que duas espécies de objetos, como a chama e o calor, a neve e o frio, apareçam sempre ligadas, se a chama ou a neve se apresenta novamente aos sentidos, a mente é levada pelo hábito a esperar o calor ou o frio e acreditar que tal qualidade realmente existe e se manifestará a quem lhe chegar mais perto." (HUME:1984, p. 153). A única explicação de Hume para esse fato de os seres humanos fazerem inferências baseadas na experiência passada se dá a partir da crença e do hábito.
 A conexão entre idéias particulares se dará, para o filósofo escocês, por três princípios: semelhança, contigüidade e causação. As inferências, neste caso serão apenas prováveis. E assim é introduzido o conceito de probabilidade na ciência. Na nota da seção VI, intitulada "Da Probabilidade", Hume retoma Locke, que afirma a existência de argumentos demonstrativos e prováveis. Hume prefere a divisão entre demonstrações, provas e probabilidades, tomando por provas os argumentos extraídos da experiência que não deixam dúvida. Seu posicionamento cético vai, portando, rejeitar o projeto de uma ciência empírica que traga à luz um conhecimento universal e necessário. Pelo contrário, ele demonstra que o conhecimento empírico é particular e contingente, podendo "se universalizar" apenas dentro da probabilidade.

CONCLUSÃO

O posicionamento cético de David Hume apresenta-se como dissolução da pretensão da ciência de obter pela razão um conhecimento universal e necessário. O filósofo em questão se nega a aceitar a lógica da indução como meio de ampliar o conhecimento. Para ele, é impossível afirmar racionalmente que um efeito sucederá a uma causa, uma vez que ambos são eventos diferentes que nosso hábito se acostumou a perceberem unidos. Todo um conjunto de exemplos que queiram demonstrar uma causalidade só consegue se aplicar ao passado, não se podendo inferir nada sobre a necessidade daquilo se repetir no futuro. O seu posicionamento cético introduz o conceito de probabilidade nas ciências. Assim, só se pode falar em previsão por indução num caráter de probabilidade, o que deixa ainda dúvidas de que sempre se confirmará uma teoria tirada de uma inferência. Dessa forma, as ciências experimentais, a partir de Hume, não podem apresentar uma lei universal, ou pelo menos, suas leis estarão sempre sujeitas à comprovação empírica em que o primeiro fato que contrarie a regra, a tomará falsa.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:


HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. Trad. Leonel Vallandro. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980 (Os pensadores).

domingo, 5 de junho de 2016

KANT E A QUESTÃO DA VIOLÊNCIA SEXUAL

Há uma tendência atual em se acreditar que os filósofos são iguais a quaisquer outros intelectuais quando se trata de explicar e avaliar situações cotidianas de seu próprio tempo. Influenciados por “estudos culturais” e “estudos de gênero”, ou ainda presos a esquemas marxistas que nunca foram os de Marx, acadêmicos atuais buscam criar frases de efeito a respeito da filosofia. Dizem coisas como “a razão em Descartes é européia, branca, masculina e adulta”. E com isso acreditam ter descoberto o que seria a “chave da filosofia”. Algo que que ela própria, filosofia, jamais teria conhecido.
É claro que os acadêmicos que agem desse modo são, na verdade, desconhecedores da filosofia. Todavia, essa moda é tão forte – motivada pelo excesso de divisão de tarefas acadêmicas e áreas de estudos – que acaba aprisionando até mesmo professores de filosofia que tiveram alguma formação razoável. Esses professores imaginam que poderiam encontrar em grandes filósofos frases injustificadamente cruéis e machistas. Então, há regozijo quando acreditam que descobriram em um grande filósofo aquilo que demonstraria que, como qualquer outro, o grande homem é “filho de seu tempo”, e isto no pior sentido da expressão. 
Há uma passagem famosa de Kant que faz sucesso entre acadêmicos dessa linha. Trata-se daquela que diz que seria mais correto para a mulher morrer lutando contra o seu estuprador do que conseguir passar pelo estupro sem perder a vida e, então, ter de se matar depois.[1] Não raro, os scholars citam tal passagem para extrair algo que poderia ser a evidência da existência de um tipo de machismo Kant. Ou pior: tal afirmação nada seria senão a confirmação da perversidade de quem adora culpar as vítimas, deixando intocável o criminoso.[2]
Não descarto a possibilidade de que Kant tenha sido um “homem de seu tempo”, especificamente nisso. Todavia, caso desejarmos dispensar essa possibilidade, eu penso que há condições e elementos. E essa é a marca do grande filósofo: ele pode tropeçar na história e chafurdar na lama da geografia, mas, ao fazer filosofia, ele dá instrumentos para que pessoas do tempo dele, e talvez ele mesmo, consigam explicações racionais que não são vítimas do tempo e do espaço de modo fácil. E Kant é sem dúvida grande filósofo – também nesse sentido específico que exponho.

A situação do estupro é significativa nesse caso.

O que ocorre? Um homem está prestes a estuprar uma mulher, e não há mais ninguém por perto. O que resta da ética ali, naquele episódio, nada mais? Há uma chance da situação, por pior que seja, revelar algo ainda digno? Uma boa parte das pessoas coloca todos os olhos sobre o estuprador. É como se ele, sendo o agente do estupro, também fosse o único agente ali naquela situação. Acreditam que só há um modo da situação ainda ter um desfecho moral. Esperam que o estuprador fique com dó, que “algo de humano” apareça nele e, enfim, que ele não vá adiante. Diferentemente, Kant não olha para o estuprador. Ele sabe que dali nada virá de digno. Para ele, o estuprador está, desde o início, fora do campo ético-moral. Mas o caso não está perdido. Kant olha para a mulher e acredita que mesmo naquela situação horrível é ela que pode lhe dar uma última coisa digna. Ela pode cumprir com a legislação máxima do Iluminismo: não se deixar dominar pela força que não seja a de sua própria vontade, comandada única e exclusivamente pela sua razão. Este é o lema do Iluminismo do qual Kant não foi só um teórico, mas também um arauto. E então a mulher luta com o estuprador. Não cede. Luta até o fim e, derrotada ou não, ela dá a vitória para a ética – para a ética iluminista kantiana: que ninguém faça o outro de meio, e somente de fim. O estuprador pode vencer a luta, mas o fato dele cumprir seu objetivo, não faz a ética sair derrotada. O episódio não morre sem que brote dele um canto de vitória da ética. Pois a vontade racional do outro não é dobrada e, portanto, o outro (a mulher) não é usada como meio – a não ser como cadáver. Mas, como cadáver, ela já não tem vontade ou razão.
Qual a crueldade nisso? Qual o machismo nisso? A situação de estupro é cruel. Mas Kant não a está apoiando de modo algum. Caso se entenda a filosofia de Kant, não vejo maneira de falar que ele foi machista ou cruel. Kant não está lá no local, no momento do estupro, e então não pode fazer algo para tentar evitar o estupro. Não há como ligar para 190. E Kant não advoga que o homem não tenha de ser severamente punido. Kant diz que apesar do ato, houve uma vitória da ética, pois a razão humana, que não deve seguir outra coisa que não ela mesma, assim agiu. A razão da mulher não cedeu as forças irracionais do homem. Que se entenda bem: a questão não é a mulher evitar o estupro por causa do estupro em si, e sim evitar que sua vontade racional seja subjugada. No ensaio “Resposta à pergunta ‘O que é o Esclarecimento?’” Kant advoga a idéia de que quem age segundo sua própria razão pode até seguir as tradições, a Igreja, o rei etc., mas não sem antes avaliar as ordens destes pelo seu próprio crivo racional. Agindo assim, comporta-se como alguém que é esclarecido ou está se esclarecendo; e se não age assim, talvez seja por preguiça ou por medo. Nesse ensaio sobre o Esclarecimento, ele diz que quase todo o gênero feminino cai sob a situação de menoridade, que é aquela de quem não usa autonomamente de sua própria razão. Ou por medo ou por preguiça, as mulheres teriam preferido agir segundo a determinações alheias. Mas, nos textos tardios de ética, Kant parece querer dar um contra-exemplo, mostrando que ele espera da mulher uma atitude que não implique nem em preguiça nem em medo. Também ela pode se portar como fora da condição de menoridade.
O argumento contra Kant, que às vezes me apresentam, me parece fraco. Alguns dizem que a ética triunfa por meio de um preço muito alto, ou seja, a vida da mulher. Todavia, na ética de Kant, o preço é alto em todas as situações, não só nessa, a do estupro. Todos os seus exemplos implicam em sacrifícios. É uma ética do dever. E o dever é tomado como correto se pode ser universalizado. É uma ética cujo princípio máximo é formal e, portanto rigoroso. O imperativo categórico é assim expresso na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de 1785. o    Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza.
E no âmbito moral, prático, pode ser visto dessa maneira: o  Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo tempo e nunca apenas como um meio. Quando você segue uma regra que você acredita que é um dever de consciência, ela ainda não é uma regra ético-moral; você ficará sabendo se ela é uma regra ético-moral se tal regra puder ser universalizada como uma lei natural, como um ditame aceito e executado por toda a humanidade. A mulher que vai ser estuprada e que luta, não só vai manter sua vontade (iluminista, esclarecida) de não se deixar levar pela bestialidade do opressor ou pelos desígnios traçados pelo homem, mas, também estará cumprindo com os princípios máximos da ética kantiana. Ela não pode “sair pela tangente” e negociar com o estuprador a partir de imperativos hipotéticos, que seguem não o dever, e sim a prudência e a astúcia. Isso a manteria viva, talvez, mas o episódio não teria nada de digno – e a ética teria se esvaído totalmente.
Caso ela diga, “OK, você me estupra e, com isso, em troca de não me matar, eu não só não conto para ninguém como facilito sua vida para estuprar outras pessoas, minhas amigas bobinhas que eu poderei trazer até o seu covil”. Mesmo que ela esteja mentindo, e não vá entregar ninguém para ele, ela já cedeu. Ela fez algo que não gostaria de ver universalizado. Algo que não pode ser universalizado. Ninguém aceitaria universalizar a seguinte regra: diante do estupro, “relaxe e goze” contanto que o estuprador siga o lema “estupra, mas não mate”. Ainda que todo mundo conte com as possibilidades dessas duas frases para escapar de um estupro, ninguém teria a coragem de dizer que essa norma deveria ser universalizada, deveria se tornar a regra universal da humanidade para lidar com o estupro. 
Cada um de nós pode dar o seguinte conselho para uma filha, irmã, mãe ou esposa: caso seja atacada por um estuprador, primeiro, “relaxe e goze”, e faça de tudo para agradar o homem nessa hora, de modo que ele cumpra a parte dele, ou seja, que ele siga o “estupra, mas não mate”. Mas nenhum de nós assumiria que esse conselho dado a quatro paredes é o que queremos que valha para a humanidade toda. Pois se universalizarmos esse tipo de procedimento, significa que pensamos em tratar o estupro não mais como um crime, e sim como uma situação que, ainda que violenta, vai ser tratada pelos envolvidos na situação, e a única coisa que a lei poderá fazer, então, será fornecer um manual com sugestões para que a mulher possa conseguir o menos pior em tal situação. O manual pode conter duas frases, uma para a mulher e outra para o estuprador. Para a mulher, “relaxe e goze”; para o estuprador, “estupra, mas não mate”.
Kant e todos os nós, kantianos ou não, não podemos aceitar a universalização de uma norma que seja a de tratar o estupro como um problema de cada um. Não podendo universalizar a situação que seria criada por uma tentativa de relacionamento “mais íntimo” entre a vítima e o opressor, não podemos adotar tal postura como um dever ético. Seria um dever, sim, o de preservar a vida. Mas um dever não eleito a dever ético.


Dr. Paulo Ghiraldelli Jr