A ÉTICA DE ARISTÓTELES

ARISTÓTELES – ÉTICA E  FELICIDADE


Aristóteles (384-322 a.C) nasceu em Estagira (Macedônia). Seu pai era médico do rei Felipe da Macedônia. É considerado, juntamente com Sócrates e Platão,  um dos mais influentes filósofos gregos do mundo ocidental.  Foi aluno de Platão e educou Alexandre, o Grande. Criou o pensamento lógico e a biologia como ciência.  “Em suas obras sobre a natureza, Aristóteles tentou descobrir uma hierarquia de classes e espécies (…). Ele estava convencido de que a natureza tinha uma finalidade e que cada traço específico de um animal existia para cumprir uma determinada função”. (Strathern, 1997, p.24).  Dessa forma, Aristóteles foi o primeiro filósofo a valorizar a observação e a experiência em seus estudos e, por isso, pode ser considerado o pai do  método científico. Aos 17 anos foi para Atenas, o maior centro filosófico e artístico de toda antiguidade, matriculou-se na escola de Platão, e lá permaneceu por vinte anos, até 347 a.C. Após a morte de seu mestre fundou sua própria escola, o Liceu. Ao contrário da Academia, que valorizava o pensamento teórico, o Liceu privilegiava as ciências naturais. Dirigiu o liceu até 324 a.C. Com a morte de Alexandre , surgiram sentimentos xenófobos, antimacedônicos,  em Atenas, sentindo-se ameaçado Aristóteles fugiu, afirmando não permitir que a cidade cometesse um segundo crime contra a filosofia, assim como cometerá com Sócrates. Apesar de sua escola ter privilegiado as ciências naturais, Aristóteles também pensou os problemas políticos e sociais de sua época, assim como se debruçou sobre os problemas éticos e morais.  Em seu livro, “Ética e Nicomaco” Aristóteles, pensou profundamente sobre a felicidade humana. 
       Para Aristóteles,  a felicidade não está ligada aos prazeres ou as riquezas, mas a atividade prática da razão. Em sua opinião,  a capacidade de pensar é o que há de melhor no ser humano, uma vez que a razão é nosso melhor guia e dirigente natural.   Se o que caracteriza o homem é o pensar, então esta e sua maior virtude e, portanto, reside nela à felicidade humana.  “Aristóteles, fiel aos princípios de sua filosofia especulativa, e após ter feito uma análise e um estudo da psicologia humana, verifica que em todos os seus atos o homem se orienta necessariamente pela ideia de bem e de felicidade e que nenhum dos bens comumente procurados (a honra, a riqueza, o prazer) preenche esse ideal de felicidade. Daí a sua conclusão: primeiro, a felicidade humana deverá consistir numa atividade, pois o ato é superior a potência; segundo, deverá ser uma atividade relacionada com a faculdade humana mais perfeita que é a inteligência (…)”. (Costa,1993, p.67) 
        Em seu livro,  “Ética e Nicômaco”,  Aristóteles mostra-nos que os homens se tornam o que são pelo hábito. Os homens se tornam bons engenheiros  construindo, e se tornam músicos tocando, da mesma forma um homem torna-se justo praticando atos justos e mal praticando atos maus. Um homem torna-se um bom ou mau músico por tocar bem ou mal. Um escritor torna-se um bom ou mau escritor por escrever bem ou mal. Assim como um mau músico não tem o hábito de tocar, também o mau escritor não tem o hábito de pensar e escrever.   Dessa forma,  para se tocar música ou escrever bem é necessária a excelência, é necessário o engajamento, é necessário o hábito. A pratica continua de uma atividade ou de um comportamento nos possibilita internalizar aquele hábito. Somente a prática leva a excelência. Esse raciocínio serve para todas as atitudes e atividades humanas. Pelo hábito de sentir receio ou confiança tornamo-nos covardes ou corajosos. O mesmo se aplica aos desejos e a raiva, por se comportarem da mesma forma e do mesmo modo em todas as circunstâncias algumas pessoas tornam-se moderadas e amáveis, outras se tornam concupiscentes ou irascíveis. É por isto que devemos fazer uso da razão em nossas escolhas e atividades. Devemos sempre desenvolver nossas atitudes e atividades de uma maneira racional.          
       A felicidade para Aristóteles corresponde ao hábito continuado da prática da virtude e da prudência. Por sua própria natureza os homens buscam o bem e a felicidade, mas esta busca só pode ser alcançada pela virtude. A virtude é entendida como Aretê – excelência. É somente através do nosso caráter que atingimos a excelência. A boa conduta, a força do espírito, a força da vontade guiada pela razão nos leva à excelência. Dessa forma, a felicidade está ligada a uma sabedoria prática, a de saber fazer escolhas racionais na vida. É feliz aquele que escolhe o que é mais adequado para si. 
        A razão é a faculdade que analisa, pondera, julga, discerne. Ela nos permite  distinguir o que é bom ou mau,  a distinguir os vícios das virtudes. Ela  nos permite fazer escolhas pertinentes para nossa felicidade. Por exemplo, a temeridade é um vício por excesso, a covardia é um vício por falta; o meio termo é a coragem, que é uma virtude. O orgulho é um vício por excesso,  a humildade um vício por falta; o meio termo é a veracidade, que também é uma virtude. A inveja é um vício por excesso, a malevolência é um vício por falta; o meio termo é a justa indignação. Para Aristóteles toda escolha exige uma mediania, um equilíbrio entre o excesso e a falta.  Na vida não podemos ser imprudentes e impulsivos se arriscando em situações perigosas. Por outro lado,  também não podemos ser covardes e ter medo de tudo deixando que o medo nos domine. É necessário o meio termo entre esses dois sentimentos, devemos enfrentar os medos e perigos sabendo agir com bom senso. O mesmo raciocínio serve para alimentação, não podemos comer muito para passar mal do estômago, assim como não podemos evitar comer, pois também vamos adoecer. Devemos comer com moderação. Por esta ótica, também podemos pensar os sentimentos.  Na vida não podemos ser vaidosos preocupando-nos apenas com nossas qualidades, satisfazendo sempre o nosso ego. Por outro lado, também não podemos ser muito modestos,  achando que somos inferiores. É necessário auto-estima, sabendo reconhecer através da razão nossos defeitos e nossas qualidades. Para Aristóteles, portanto,  devemos sempre escolher o meio termo, sendo moderados em tudo o que fazemos na vida. Somente assim atingiremos o bem e a felicidade.    


ARISTÓTELES E A EDUCAÇÃO ÉTICA


Aristóteles pensa a educação como causa da felicidade, pois acredita que todas as causas têm um fim. A educação seria a maneira de preparar o cidadão para a vida em sociedade, e essa vida em sociedade deveria se dar por meio de virtude calcada na boa educação e na prática de atos virtuosos. Para o filósofo, não aprendemos a virtude lendo textos ou ouvindo conceitos sobre a palavra, mas aprendemos a ser virtuosos mediante a educação que recebemos e praticando atos virtuosos. Entretanto, precisaríamos de certo conhecimento sobre os valores e definições de justiça em cada sociedade para sermos justos e virtuosos, mas a virtude e a justeza não estariam “fechadas” nessas definições.
Segundo Aristóteles, a educação deveria ser direito do estado. Ou seja, deveria haver uma educação pública voltada para todos. E, ao mesmo tempo, a educação teria seus fundamentos na família, sendo supervisionada pelo estado a fim de se garantir sua qualidade com o intuito de preparar a criança para a pólis. Para o filósofo, a forma de se educar seria através da repetição. Uma criança estaria sendo bem educada repetindo os gestos de virtude demonstrados pelos seus preceptores. Daí, a necessidade de as crianças terem uma boa instrução.
Mas, o que seria de fato essa boa educação para Aristóteles? Sabemos que Aristóteles toma como referência positiva a educação na Cidade-Estado de Esparta. Ao nascer, todas as crianças eram apresentadas para uma comissão de avaliadores que decidiam se esta deveria ou não continuar vivendo. Se não fosse forte, perfeita e saudável a criança não tinha direito à vida. Era sacrificada em benefício da pátria. Se fosse forte e perfeita, sem nenhum indício de doença, seria mantida com a família até idade de sete anos, quando então o Estado se apropriava dela e lhe garantia educava até os vinte anos, sob a autoridade de um magistrado responsável por sua formação física, moral e cívica. Era uma educação austera, dura, que tinha como objetivo o ensino da obediência às leis e o servir à Pátria.
Para Aristóteles, a educação é um instrumento pelo qual o homem se realiza no sentido político do termo, pois essa é a finalidade do homem segundo o filósofo. Mas convém lembrar que não existe nenhum escrito de Aristóteles de forma direta sobre educação, então faz-se necessária uma interpretação do que está dito na Ética Nicômaquéia e na Política. Na Ética Nicômaquéia, Aristóteles explicita o caráter de sua ética que- em síntese - seria o bem agir perante a sociedade e praticar atos virtuosos. Ora, para o estagirita o homem seria naturalmente um ser político, nascido, portanto, para a vida em sociedade.
Durante o tempo em que Aristóteles passou na Academia de Platão, uma das suas maiores rivalidades foi com a escola de Isócrates, para quem o ensino da retórica era visto como indispensável para a formação do cidadão. Apesar de Aristóteles ter estudado retórica, tinha uma visão diferente não só de Isócrates como também do seu mestre Platão. Para Aristóteles, a educação dever ser separada em seus diferentes modos. No que concerne aos conteúdos, não seria interessante pensar que as verdades matemáticas caberiam em uma argumentação retórica. O ensino para Aristóteles toma um rumo diferente do Platônico. Platão tinha em mente um ideal de BEM SUPREMO para a vida. Enquanto para Aristóteles, a educação não deve ser de um ideal utópico de vida, sabendo da imperfeição humana, essa seria amenizada com a educação. Seu “ideal” poderia ser alcançado com um estado virtuoso.
Aristóteles acreditava que  “Bem Supremo” seria a felicidade. Entretanto, não seria um bem supremo utópico. Seria como foi dito um exercício da virtude e das ações virtuosas na sociedade e em segundo plano ficaria a realização dos bens materiais. Tais exercícios de virtude não se dariam sem uma instrução, a natureza humana não teria a capacidade, segundo Aristóteles de agir deliberadamente para com atos virtuosos, seria preciso uma instrução (educação) para agir de modo virtuoso na sociedade. Aristóteles, no Livro Ética Nicômaquéia, pensa em uma educação ministrada pelo ensino privado. Mas, logo depois no livro Política, ele faz uma reflexão sobre esse ensino e defende a educação sendo ministrada pelo Estado, com o argumento de que na educação privada cada um poderia ensinar o que quisesse par seus alunos. Enquanto no público, a educação seria mais coesa para com os ideais do Estado. Pois, não havia uma individualidade, um eu, tal como concebemos. Os cidadãos eram unidos ao Estado, defendo não interesses pessoais, mas, os da pólis.
Para Aristóteles, era inútil procurarmos algo supremo e inatingível, como a idéia do Bem Supremo. O conhecimento do que nos cerca, do que está ao nosso redor, seria de fato suficiente para o nosso conhecimento e para atingirmos a virtude. Dessa forma, para pensar educação em Aristóteles é preciso saber o que ele entendia por ética, bem como o que ele considerava ser o viver bem e para o estagirita o exercício da ética conduziria o homem à felicidade ou à sua finalidade: sua realização no seio da sociedade. Então, a educação pensada sobre a ótica aristotélica é aquela na qual os homens são treinados para o exercício da virtude e para a aplicação da ética na sociedade. A ideia aristotélica de o homem ser um ser político por natureza não concerne à vida política (segundo o sentido que vemos hoje primariamente na palavra), tal como muitas vezes se pensa erroneamente, porém uma vida voltada para a Pólis.


RAZÃO DIANOÉTICA/INTELECTUAL &  A  RAZÃO PRATICA VIRTUDES ÉTICAS

Aristóteles trata da moral em três Éticas, de que se falou quando das obras dele. Consoante sua doutrina metafísica fundamental, todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza, à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim, o seu bem, a sua felicidade, e, por conseqüência, a sua lei. Visto ser a razão a essência característica do homem, realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. E assim consegue ele a felicidade e a virtude, isto é, consegue a felicidade mediante a virtude, que é precisamente uma atividade conforme à razão, isto é, uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. Logo, o fim do homem é a felicidade, a que é necessária à virtude, e a esta é necessária a razão. A característica fundamental da moral aristotélica é, portanto, o racionalismo, visto ser a virtude ação consciente segundo a razão, que exige o conhecimento absoluto, metafísico, da natureza e do universo, natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar.
As virtudes éticas, morais, não são mera atividade racional, como as virtudes intelectuais, teoréticas; mas implicam, por natureza, um elemento sentimental, afetivo, passional, que deve ser governado pela razão, e não pode, todavia, ser completamente resolvido na razão. A razão aristotélica governa, domina as paixões, não as aniquila e destrói, como queria o ascetismo platônico. A virtude ética não é, pois, razão pura, mas uma aplicação da razão; não é unicamente ciência, mas uma ação com ciência.
Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática, popular, embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos, isto é, entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. Naturalmente, este justo meio, na ação de um homem, não é abstrato, igual para todos e sempre; mas concreto, relativo a cada qual, e variável conforme as circunstâncias, as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos.
Pelo que diz respeito à virtude, tem, ao contrário, certamente, maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. Se a virtude é, fundamentalmente, uma atividade segundo a razão, mais precisamente é ela um hábito segundo a razão, um costume moral, uma disposição constante, reta, da vontade, isto é, a virtude não é inata, como não é inata a ciência; mas adquiri-se mediante a ação, a prática, o exercício e, uma vez adquirida, estabiliza-se, mecaniza-se; torna-se quase uma segunda natureza e, logo, torna-se de fácil execução - como o vício.
Como já foi mencionado, Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas, que constituem propriamente o objeto da moral, e as dianoéticas, que a transcendem. É uma distinção e uma hierarquia, que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. As virtudes intelectuais, teoréticas, contemplativas, são superiores às virtudes éticas, práticas, ativas. Noutras palavras, Aristóteles sustenta o primado do conhecimento, do intelecto, da filosofia, sobre a ação, a vontade, a política.


A ÉTICA DO JUSTO  MEIO O EQUILÍBRIO DA RELAÇÃO TEORIA E PRÁTICA


O justo meio e foi desenvolvido tendo como base o livro 02 da obra “Ética a Nicômaco”. Nele, se analisa os aspectos que compõem a felicidade e o bem, os quais se tornam de grande relevância na realidade dos seres humanos na busca pela realização, segundo a perspectiva de Aristóteles. A escolha do tema se justifica pela necessidade de se compreender a importância do justo meio no sentido de equilíbrio, mostrando que a falta e os excessos geram a impossibilidade da construção real do homem virtuoso. Para tanto consideraremos a importância do justo meio entre a virtude intelectual (teoria) e a virtude moral (prática), enfatizando que a prática da reflexão que tem como suporte a teoria, se constitui como elemento de extrema importância na realidade social, destacando que o autêntico filósofo é aquele que demonstra a capacidade de unir, com coerência, pensamento e vida. A Ética a Nicômaco foi escolhida para ser analisada porque, se trata de uma importante abordagem sobre ética e moral, e ainda nos retrata nos dez livros que a compõem, o filósofo Aristóteles assumindo um papel pedagógico de um pai preocupado com a educação de seu filho e, acima de tudo, com a sua felicidade. Portanto a felicidade de seu filho (Nicômaco) dependeria do equilíbrio promovido pelo justo meio, que agiria como elemento de ligação entre teoria e prática. É certo pensar que Aristóteles não queria que seu filho fosse um mero pensador, restrito ao intelectualismo, mas alguém que pudesse viver uma vida coerente e influenciadora através da prática das honestas reflexões que por ele (Nicômaco) seriam construídas. Com certeza, escrever sobre suas obras é o mesmo que se envolver com a expressão complexidade, pois são vários, os temas por ele abordados, temas estes referentes à física, biologia, politica, arte, poesia e ética. Referente á ética,  abordaremos neste artigo, aquele que é conhecido como “A ÉTICA A NICÔMACO” em sua reflexão sobre o tema “ÉTICA”.

Nesta obra, Aristóteles discorrerá sobre o bem supremo no cenário da vida humana, o qual é identificado pela expressão FELICIDADE, onde também tratará sobre os mecanismos necessários para ter uma vida feliz, alicerçada em fundamentos básicos de valores éticos. Perceberemos também que a ética presidirá e justificará todas as formas de se alcançar o bem supremo. Desta maneira, para se entender o que Aristóteles considerava felicidade, faz-se necessário compreender seu conceito sobre ela e sobre alguns princípios necessários para alcançá-la. A felicidade (eudaimonia) no conceito aristotélico implica, além da atividade da virtude completa, em possuir uma vida completa. Na vida do individuo verdadeiramente feliz deve existir uma série de condições necessárias para sua realização. Este deve ser provido de bens materiais ou exteriores, portanto não passando necessidades econômicas ou grandes desventuras, bem como deve ser possuidor de liberdade pessoal. (VAZQUEZ, 2004, p. 158).  Estas condições, contudo não garantem a felicidade, mas sua ausência pode prejudicar ou até impedir o alcance desta. Aristóteles afirma:

A felicidade necessita igualmente dos bens exteriores, pois é impossível, ou pelo menos não é fácil, praticar ações nobres sem devidos meios. Em muitas ações usamos como instrumento os amigos, a riqueza e o poder político; e há coisas cuja ausência empana a felicidade, como a estirpe, a boa descendência, a beleza. De fato, o homem de muito má aparência, ou mal nascido, ou solitário e sem filhos, não tem muitas probabilidades de ser feliz, e tê-las-ia ainda menos se seus filhos ou amigos fossem, ou se a morte lhe houvesse roubado bons filhos ou amigos. Como dissemos, pois, o homem feliz parece necessitar também desse tipo de prosperidade. (ARISTÓTELES, 2004, p. 30). Sendo assim, para se chegar à felicidade mesmo esta sendo alcançada conforme a prática da virtude perfeita deve possuir uma vida de prosperidade e bem-estar. A felicidade na ótica de Aristóteles envolverá desde boa aparência até bons amigos, percebemos diante de tal colocação que a realidade que compõe o processo da felicidade esta inserido na aquisição de bens. Sejam eles externos (beleza, boa descendência e filhos), assim como internos (vinculados à alma).



O CONCEITO DE JUSTO MEIO NA ÉTICA A NICÔMACO

Aristóteles afirma que existem dois tipos de virtudes: a virtude intelectual e a moral. A intelectual é conquistada através do ensino e aprendizagem e é reforçada pelo tempo. A virtude moral é adquirida pelo hábito e pelo exercício. É através da prática que nos tornamos virtuoso ou não. Nesse quesito as relações humanas são determinantes possibilidades de manifestarmos nossas virtudes ou não. O homem deve estar atento aos seus atos, pois é através deles que o mesmo se construirá como virtuoso. A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um principio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. (ARISTÓTELES, 1979, p. 73).  A virtude não é diversamente da felicidade, uma atividade, senão que um hábito, ou maneira habitual de ser; como tal, não pode ser adquirida da noite para o dia, porque depende de muito exercício - repetindo certos atos o homem acaba por transformá-los numa segunda natureza, isto é, numa disposição (e não atividade) para no futuro agir sempre da mesma forma.  O justo-meio é uma virtude, uma espécie de mediana que equilibrará a situação. O homem deve optar por um caminho que condene ambos os extremos sendo, pois, os causadores dos excessos e dos vícios.
O homem que age segundo o justo-meio, se tornará um homem virtuoso, pois caminhará entre os vícios, escolhendo a virtude e atingindo um estado de felicidade pessoal. A felicidade só será alcançada com o amplo desenvolvimento dessa capacidade de caminhar no justo-termo, sem se perder nos excessos ou nas ausências de virtudes. É pela prática dos atos justos que se gera o homem justo, é pela prática de atos temperantes que se gera o homem temperante; é através da ação que existe a possibilidade de alguém tornar-se bom. Para tanto, ele deve ser então educado no hábito das virtudes morais e fazer dessa aprendizagem, um referencial constante em sua vida.

Aristóteles é o primeiro pensador que, ao aprofundar na concepção do objeto da atividade filosófica como sabedoria, assinala nas dimensões do ético e do politico (filosofia “prática”), distinguindo-as, sem separa-las, do saber teorético mais estrito, representando principalmente pelas filosofias primeira e segunda, mais tarde qualificadas como metafísica e filosofia da natureza, com tudo quanto inclui uma e outra. (MELENDO, 2005, p. 57).  Diante disso podemos perceber a importância da junção entre teoria e prática, desenvolvida por este (Aristóteles) que será considerado em sua realidade ética um princípio para a construção daquele que chamamos de homem virtuoso. Interessante que quando a filosofia grega se refere à questão de estruturas, percebemos que a mesma considera a realidade teoria-prática como elementos de extrema importância, que devem compor o perfil filosófico daqueles que se identificam como autênticos filósofos.

Toda contemplação grega leva consigo, de maneira estrutural uma determinada atitude em relação com a vida. Não era, pois, a teoria grega uma simples doutrina de índole intelectual e abstrata, mas também e sempre uma doutrina de vida; ou, dito de outro modo, uma doutrina que reclama intrinsecamente verificação existencial, encontrando-se, comumente, acompanhada por ela. Estendendo o seu juízo para além dos autores que brevemente consideramos, acrescenta: o permanente da filosofia grega é o THEOREIN, por vezes louvado em seu valor especulativo, por vezes do prático, mas sempre de forma que essas duas instâncias se impliquem uma e outra de modo estrutural. Além disso, o assunto fica comprovado enquanto se adverte que os gregos, ao longo de toda a sua história, somente consideram como autêntico filósofo aquele que demonstrava a capacidade de unir, com coerência pensamento e vida; em consequência, a quem sabia ser mestre não só de reflexão, mas de vida vivida. (MELENDO, 2005, p. 58).

Percebemos diante de tal colocação expressa por Melendo, que a realidade do pensamento grego, em suas construções filosóficas não estavam restritas ao campo teórico, mas existiam sobre tais construções uma perspectiva prática que promovia o equilíbrio tendo como resultado a realização do justo meio. É importante assimilarmos que Aristóteles enfatizara a importância do equilíbrio que se dá através do justo meio, evitando a falta e os excessos. Portanto, quando realizamos uma reflexão filosófica, partindo de um ponto teórico (virtude intelectual), só poderemos alcançar o justo meio através de uma realidade prática (virtude moral) que colocará o suporte teórico em ação, sendo assim, teremos a excelência da reflexão filosófica, pois a mesma com suporte teórico pode ter acesso à realidade da vida vivida. Aristóteles nos mostrará que o homem virtuoso não é aquele que apenas conhece as virtudes e até discursa sobre ela como os sofistas, mas é aquele que pratica as virtudes, sendo assim, entendemos que o virtuoso só pode ser real, se existir em um primeiro momento a sua própria prática no contexto da vida.


SINOPSE DA ÉTICA DE ARISTÓTELES

A ética aristotélica, em oposição à ética de seu mestre, é imanente, tendo suas bases na realidade empírica do mundo, no questionamento acerca das condutas humanas e na organização social. As exigências com relação à vida na polis e a realidade do homem formam o conteúdo das idéias, e são ambas as responsáveis pela escolha dos valores, pela moralidade e pelas leis, pela definição das condutas dos homens. Sua teoria ética era realista, empirista em contrapartida à visão idealista e racionalista de Platão.A ética aristotélica inicia-se com o estabelecimento da noção de felicidade. Neste sentido, pode ser considerada eudemonista por buscar o que é o bem agir em escala humana, o agir segundo a virtude – diferentemente de Platão, que buscava a essência das idéias de felicidade e da idéia do Bem sem relacioná-las diretamente à prática. A felicidade é definida como uma certa atividade da alma que vai de acordo com uma perfeita virtude. Partindo dessa definição, faz-se necessário um estudo sobre o que é uma virtude perfeita e, assim, faz-se necessário, também, o estudo da natureza da virtude moral.
A virtude é definida pelo Estagirita como hábito ou disposição racional constante, sendo a virtude o hábito torna o homem bom e o capacita na boa execução de sua função. Esta definição se mostra oposta à de Platão: a virtude é definida como capacidade de realizar uma função determinada, inerente a alguma parte da alma humana ou da cidade ideal.A virtude moral é consistida por uma mediedade relativa a nós e o filósofo define- a como disposição – já que não podem ser nem faculdades nem paixões – para agir de forma deliberada, sendo que a disposição está de acordo com a reta razão. Após estabelecer a virtude moral como uma disposição – héxis – ou seja, como se dá o comportamento do homem com relação às emoções, há ainda a necessidade de que a diferença específica entre virtude moral e virtude intelectual seja explicitada. O Estagirita, em contrapartida às visões de Sócrates e Platão, atribui um papel importante dos sentimentos no âmbito ético, pois esta parte emocional da alma também é responsável na formação das virtudes, quando em conformidade com a parte racional.
O que distingue as duas espécies de virtude é a mediania. A virtude intelectual é adquirida através do ensino, e assim, necessita de experiência e tempo. A virtude moral é adquirida, por sua vez, como resultado do hábito. O hábito determina nosso comportamento como bom ou ruim. É devido ao hábito que tomamos a justa-medida com relação à nós. Logo, a mediania é imposta pela razão com relação às emoções e é relativa às circunstâncias nas quais a ação se produz.
Nenhuma das virtudes morais surge nos homens por natureza – ao contrário da visão inatista platônica – porque o que é por natureza não pode ser alterado pelo hábito, a natureza nos capacita em receber tais virtudes e esta capacidade em recebê-las é aperfeiçoada pelo hábito. Virtudes e artes são adquiridas pelo exercício, ou seja, a prática das virtudes é um pré-requisito para que se possa adquiri-las. Sem a prática, não há a possibilidade de o homem ser bom, de ser virtuoso.
Neste ponto da exposição aristotélica, podemos notar outra oposição com relação à ética platônica: conforme esta, o homem só pode ser bom e virtuoso ao contemplar a idéia do Bem – o que aponta para a diferença entre as concepções idealistas/racionalistas apresentadas por Platão e as concepções realistas/empiristas expostas pelo peripatético. Aristóteles critica a identificação feita por seu mestre entre virtude e conhecimento, de modo que conhecer a essência da Justiça implicaria em ser justo, haja vista que são identificados. Assim, o conhecimento da idéia do Bem seria a condição para o bem agir, e a virtude consistiria em somente um tipo de conhecimento teórico, conforme a crítica feita pelo Estagirita. Este afirma que a razão não é a única a atuar na determinação da boa conduta, devendo-se levar em conta os sentimentos por auxiliarem na formação das virtudes, além do fato de que as virtudes implicam uma atividade racional.
Como vimos, as virtudes morais são vistas como produto do hábito, consequentemente não são tomadas como inatas – como o fizeram Sócrates e Platão. Ao considerar as virtudes morais como adquiridas, há uma implicação de que o homem é causa de suas próprias ações, responsável por seu caráter – por esse motivo a ação precede e prevalece sobre a disposição – o que refuta a idéia platônica de que o homem que age mal, o faz por ignorância, pois o mal é a ausência do bem. Está na natureza das virtudes a possibilidade de serem destruídas pela carência ou pelo excesso e cabe à mediania preservar as virtudes morais e também diferenciá-las das virtudes naturais. Pode-se notar, pois, que a idéia de justa-medida preconiza que qualquer virtude é destruída pelos extremos: a virtude é o equilíbrio entre o sentir em excesso e a apatia. Portanto, fica evidente que a virtude busca pela harmonia – e esta é dada pela razão entre as emoções extremas. O meio-termo é experimentar as emoções certas no momento certo e em relação às pessoas certas e objetos certos, de maneira certa. Isso é a mediania, é a excelência moral, a qual diverge da noção platônica de excelência moral, que seria cada parte da alma exercer sua tarefa própria da melhor maneira possível, com excelência para exercer sua respectiva virtude.
Ao propor a mediania como gênero de virtude moral, como regra moral, o Estagirita retornou à sabedoria grega clássica, porque esta indicava a mediania como a regra de ouro do agir moral. A mediania tem o aspecto de não silenciar as emoções, mas buscar a proporção e, devido a essa proporção, a ação será adequada sob a perspectiva moral e, concomitantemente, a ação ficará ligada às emoções e paixões – contrariamente à doutrina platônica, na qual a ação moral tem uma relação intrínseca com a contemplação do Bem. De acordo com Aristóteles, a posição de meio é o que tem a mesma distância de cada um dos extremos. Com relação a nós e sempre considerando nesse viés, meio é o que não excede nem falta. Aqui fica evidente que o “meio” se dá em relação ao agente, pois não é válido para todos.
A virtude moral deve possuir a qualidade de visar o meio-termo por se relacionar com as paixões e ações. Nas ações e paixões, por sua vez, existem a carência, o excesso e o meio-termo. As ações e os apetites não tem, em sua natureza, algo que determine sua tendência para a falta ou para o excesso. Por sua vez, a tendência à mediania expressa a virtude moral, expressa a excelência da faculdade desiderativa da alma. O que nos faz tender à mediania é a educação e a repetição de atos bons e nobres. Por conseguinte, o hábito é desenvolvido e visa a mediania. Esta, por sua vez, é determinada segundo um princípio racional. Pode-se notar que, para Aristóteles, a virtude é uma espécie de mediania já que visa o meio-termo e que é vista como disposição de caráter que tem relação com a escolha dos atos e das paixões. A justa-medida é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. Assim, ao buscar pela essência da virtude, por sua definição, Aristóteles define-a como mediania.
O Estagirita afirma que sua investigação acerca da virtude não é de cunho exclusivamente teórico, como a realizada por Platão, mas a investigação se dá com a finalidade de que os homens tornem-se bons – pois cabe à mesma ciência, ou seja, à Ciência Política, tanto o conhecimento das virtudes quanto a função de fazer com que os homens se tornem bons. Logo, busca-se a definição de virtude e sua aplicação nos fatos particulares.A virtude é um meio-termo entre dois vícios. Um desses vícios envolve o excesso e o outro vício envolve a carência. Logo, cabe à virtude e à sua natureza visar a mediania tanto nas ações – embora algumas ações não permitam um meio-termo por seus próprios nomes já implicarem, em si mesmos, maldade – quanto nas paixões. Um dos extremos – entre os quais a mediania se localiza – é mais equivocado que o outro. Deve-se, portanto, estar atento aos erros para os quais tem-se maior facilidade para ser arrastado. Pode-se saber para qual erro se é arrastado ao se analisar o prazer e o sofrimento acarretado pelo mesmo. Ao descobrir para qual erro se tende mais, deve-se ir em direção oposta, ao outro extremo para que se chegue ao estado intermediário e, consequentemente, afastar-se do erro.Em todas as coisas, o meio-termo é digno de ser louvado. Contudo, ora deve-se inclinar no sentido do excesso, ora da falta com a finalidade de se chegar mais facilmente ao que é correto e ao meio-termo.Ao longo das exposições acerca das perspectivas éticas de Platão e Aristóteles, podemos perceber convergências e divergências, sendo que estas foram explicitadas de modo geral.



REFERÊNCIAS:


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução Pietro Nasseti, 3º Edição São Paulo: Martin Claret, 2004.
______. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril cultural, 1979.
MELENDO. Tomás. Iniciação à Filosofia. Tradução de Marciano Lang Fraga. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon LLuLL), 2005.
VAZQUEZ. Adolfo Sanches. Ética. Tradução de João Dell´Anna. 2º Edição Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

ZABATIERRO. Julio. Teologia Prática. São Paulo: Mundo Cristão, 2005