JOHN LOCKE

"todos os homens, que, sendo todos iguais e livres, nenhum deve prejudicar o outro, quanto à vida, à saúde, à liberdade, ao próprio bem". E, para que ninguém empreenda ferir os direitos alheios, a natureza autorizou cada um a proteger e conservar o inocente, reprimindo os que fazem o mal, direito natural de punir"

FRIEDRICH HAYEK

“A liberdade individual é inconciliável com a supremacia de um objetivo único ao qual a sociedade inteira tenha de ser subordinada de uma forma completa e permanente”

DEBATES FILOSÓFICOS

"A filosofia nasce do debate, se não existe a liberdade para o pensar, logo impera a ignorância"

A Filosofia é.....

"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir". Descartes

LIBERDADE

"Liberdade, Igualdade , Fraternidade. Sem isso não há filosofia. Sem isso não há existência digna.

"Nós temos um sistema que cobra cada vez mais impostos de quem trabalha e subsidia cada vez mais quem não trabalha"

LUDWING V. MISES

"O socialismo é a Grande Mentira do século XX. Embora prometesse a prosperidade, a igualdade e a segurança, só proporcionou pobreza, penúria e tirania. A igualdade foi alcançada apenas no sentido de que todos eram iguais em sua penúria"

domingo, 20 de julho de 2014

APORTES DE F.H. JACOBI E A CRÍTICA A FICHTE E A QUESTÃO NO IDEALISMO E NIILISMO

Etimologicamente niilismo vem de Nihil, que significa nada[1]. Este termo aparece primeiramente com Goetzius (1733). Mas é, sobretudo, na interpretação de F. H. Jacobi, a respeito da identidade do niilismo, que o termo adquire maior consistência, apresentando-o como responsável pelo “[...] processo de aniquilação da realidade provocado pela redutiva posição fundamental da razão que quebra a relação ontológica constituinte” (IVALDO, 1995, p. 18). A partir da crítica de Jacobi ao idealismo de Fitche que surge propriamente o conceito filosófico do niilismo, o qual pode ser localizado no final do século XVIII, ao longo das disputas que caracterizam a fundação do idealismo alemão, e dos debates como visto especificamente na carta de Jacobi a Fichte[2], redigida em março e publicada no outono de 1799.
 Segundo Volpi, o uso do termo feito na carta inaugura a significação filosófica do termo niilismo: “A passagem mais importante, comumente apontada como primeira ocorrência do termo niilismo e sua acepção especulativa, vem desta carta de Jacobi a Fitche” (VOLPI, 1996, p. 18). Jacobi escreve: “Na verdade, meu caro Fitche, não devo me aborrecer se você ou quem quer que seja quiser chamar de quimerismo isso que eu contraponho ao idealismo e repudio como niilismo” (JACOBI, 1996, p. 223). Nesta carta Iacovacci enfatiza que “Jacobi declara a “artificialidade de uma redução filosófica ao eu, cujo êxito é uma desproporção ontológica e uma recaída simétrica sobre as potencialidades construtivas do saber” (IACOVACCI, 1992, p, 22). A critica de Jacobi ao idealismo fitcheano se dá visto que o “Eu fitcheano caminha tanto no vazio como para o nada [...] por esta razão, Jacobi acusa Fitche de ateísmo, por ter ido além dos limites de sua razão ao encontro do abismo[3]” (SOLÉ, 2009, p. 456). Desta forma, o ponto central da filosofia de Jacobi é a necessidade de ir além do conhecimento demonstrável, além do saber intelectual que buscava chegar a um conhecimento imediato do absoluto.

Em sua critica, Jacobi busca demonstrar que o idealismo de Fitche começa com objetos que ela não é capaz de explicar a partir da subjetividade, e a partir de uma perspectiva subjetiva, aniquila a objetividade do mundo. Diante de tal impasse a saída para Jacobi é o salto mortale, a fé[4]. Jacobi procura reabilitar uma filosofia onde Deus se torna novamente um instrumento apenas de fé e não de racionalidade.

            A posição de Jacobi é uma tentativa de escapar deste niilismo causado pelo absolutismo da razão idealista. De acordo com (BERLANGA. 1989, p. 272), Jacobi “Busca uma reconciliação com a representação tradicional e religiosa do mundo (...)”. Para Jacobi, aquilo que preside todo e qualquer conhecimento seria a fé em uma primeira proposição. Com isso, não é a lógica racional que determina o conhecimento, mas a fé em um ponto de partida. Para toda a teoria, a justificativa do conhecimento repousa sobre o incondicionado. Mas, devido às elucubrações das teorias passa-se a esconder a base, a proposição inicial que acaba sendo validada pela fé. De acordo com Jacobi, o idealismo de Fitche levado ás última conseqüências seria responsáveis por embaralhar as coisas em um movimento infinito sem se dar conta que o próprio inicio da atividade do pensamento tem que estar embasado em uma proposição indeterminada que parte da fé para ser aceita. Como afirma Jacobi:
Querido Mendelssohn: todos nós nascemos na fé e temos que permanecer nela, assim como nascemos e temos que permanecer em sociedade. Como podemos aspirar a certezas se de antemão a certeza não nos é familiar? Como podemos reconhecê-la, senão porque já conhecemos algo com certeza? Tudo isto nos leva ao conceito de uma certeza imediata, que não requer nenhuma prova, senão que exclui absolutamente toda prova, porque é a única representação que concorda exclusivamente com a coisa representada – e, por conseguinte tem seu princípio em si mesma. O convencimento através de provas possui uma certeza de segunda mão, pois repousa na comparação e não pode ser inteiramente segura e perfeita. Se a crença é aquilo que temos por verdadeiro, algo que não surge de fundamentos racionais, então o convencimento a partir de fundamentos racionais procede da crença, e sua força é recebida dela. (JACOBI, 1996, p. 145-146.).

O pensamento conceitual para Jacobi era suspeito, visto que para Jacobi a razão idealista consiste na atividade de deduzir conclusões a partir de premissas, de modo que avança ou retrocedo indefinidamente, sem que algo na cadeia dos raciocínios a liberte do vazio em que trabalha. Desta forma, Jacobi propõem a doutrina do salto mortale (fé). A fé para Jacobi não equivale necessariamente à crença em realidades transcendentes ou ocultas; trata-se de certezas imediatas, tais como a existência de nosso ser e a de outros seres, certezas que fundamentariam o pensamento discursivo. Com isso, Jacobi por meio da doutrina salto mortale suspende a razão o intelectualismo como status do saber absoluto e total, e abraça a fé. Hegel ironiza pesadamente Jacobi dizendo que esse salto é mortal para a filosofia, porque passa por cima da demonstração e da mediação, que para ele, são a filosofia. Mas, considera a posição de Jacobi até paradigmática, dedicando-lhe amplo exame.
Para Hegel Jacobi apresenta a posição do acesso imediato ao absoluto, em relação a qual a posição hegeliana pretende ser a exata antítese. Mas, o próprio Fitche, e também Schlegel, ferozes adversários de Jacobi nas respectivas fases finais do seu pensamento, seriam obrigados, contra a vontade e sem reconhece-lá, a concordar com muito daquilo que Jacobi disse” (REALLE.1991, Vol. III, p. 48). Schlegel afirma: “Apesar da antítese absoluta entre realismo e o idealismo, é extremante fácil passar de um extremo para o outro. Ambos levam prontamente ao niilismo [...]”(cf. VOLPI. 1996, p 20).Desta forma, será que Fitche e Schlegel no final de seus pensamentos filosóficos continuaram sendo idealistas na teoria e Jacobiano em uma pratica enrustida ? E desta forma, o salto mortale não ganharia mais força em sua argumentação ? Como disse: “Um idealista como G. de Ruggiero, diante desses dados de fato foi levado a confessar o seguinte: Qual será o idealista mais radical que não tem um Jacobi dentro de si e não o sinta crescer nos momentos de tréguas e descontentamento?. Tudo isso é suficiente para demonstrar que Jacobi foi uma das figuras chaves entre os corifeus do pensamento na época romântica” (REALLE.1991, Vol. III, p. 48).  Seria possível pelo salto mortale reabilitar valores metafísicos e transcendentes, e a reconsideração de certezas imediatas, tais como a existência de nosso ser, e a de outros seres, certezas que fundamentariam o pensamento discursivo? Sendo isso possível, as intuições de liberdade, princípios morais, religiosos e certezas não precisam aderir ao ceticismo e niilismo racional?






[1]Niilismo (do latim nihil, nada) é um termo e um conceito filosófico que afeta as mais diferentes esferas do mundo contemporâneo literatura, arte, ciência humanas, ética e moral. É a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao “por que”. Os valores tradicionais depreciam-se e os "princípios e critérios absolutos dissolvem-se". Tudo é sacudido, posto radicalmente em discussão. A superfície, antes congelada, das verdades e dos valores tradicionais está despedaçada e torna-se difícil prosseguir no caminho, avistar um ancoradouro.
[2]Na Carta a Fichte, Jacobi declara a “ [...] artificialidade de uma redução filosófica ao eu, cujo êxito é uma desproporção ontológica e uma recaída simétrica sobre as potencialidades construtivas do saber” (IACOVACCI, 1992, p, 22).
[3] Mas a fantasia dos deístas se fatigou em vão com a infinitude do espaço e do tempo. Aqui se mostra toda a sua importância, a inconsciência de sua visão de mundo, de suas idéias acerca da natureza de Deus. É por isso que sua visão de mundo, de suas idéias acerca da natureza de Deus cai por terra. O idealismo, porém, realmente lhes causou esse sofrimento ao destruir-lhes os fundamentos de prova da existência de Deus. [...] Abstenho-me, como disse, de toda a discussão popularizante [...] Limito-me a assegurar que, desde então o deísmo está morto no reino da razão especulativa. Essa desoladora nota de falecimento precisará talvez de alguns séculos para ser totalmente difundida – mas nós outros já teremos vestido luto há muito tempo. (HEINE, 1991, p. 97). (Grifo nosso)
[4] “Hegel ironiza pesadamente Jacobi dizendo que esse salto é mortal para a filosofia, porque passa por cima da demonstração e da mediação, que para ele, são a filosofia. Mas, considera a posição de Jacobi até paradigmática, dedicando-lhe amplo exame. Para Hegel, Jacobi apresenta a posição do acesso imediato ao absoluto, em relação a qual a posição hegeliana pretende ser a exata antítese. O próprio Fitche, e também Schlegel, feroses adversários de Jacobi nas respectivas fases finais do seu pensamento, seriam obrigados, contra a vontade e sem reconhecê-la, a concordar com muito daquilo que Jacobi disse” (REALLE.1991, p. 63).