Páginas

JOHN LOCKE

"todos os homens, que, sendo todos iguais e livres, nenhum deve prejudicar o outro, quanto à vida, à saúde, à liberdade, ao próprio bem". E, para que ninguém empreenda ferir os direitos alheios, a natureza autorizou cada um a proteger e conservar o inocente, reprimindo os que fazem o mal, direito natural de punir"

FRIEDRICH HAYEK

“A liberdade individual é inconciliável com a supremacia de um objetivo único ao qual a sociedade inteira tenha de ser subordinada de uma forma completa e permanente”

DEBATES FILOSÓFICOS

"A filosofia nasce do debate, se não existe a liberdade para o pensar, logo impera a ignorância"

A Filosofia é.....

"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir". Descartes

LIBERDADE

"Liberdade, Igualdade , Fraternidade. Sem isso não há filosofia. Sem isso não há existência digna.

"Nós temos um sistema que cobra cada vez mais impostos de quem trabalha e subsidia cada vez mais quem não trabalha"

LUDWING V. MISES

"O socialismo é a Grande Mentira do século XX. Embora prometesse a prosperidade, a igualdade e a segurança, só proporcionou pobreza, penúria e tirania. A igualdade foi alcançada apenas no sentido de que todos eram iguais em sua penúria"

quarta-feira, 4 de abril de 2018

THOMAS SOWELL: DO MARXISMO AO LIVRE MERCADO

Por Thomas Sowell 
Como e por que eu larguei o esquerdismo de minha juventude para adotar as opiniões que tenho hoje, as quais são a favor do livre mercado e valores tradicionais? De certa forma, minha visão de como os seres humanos agem mudou mais do que a filosofia subjacente.
Quando eu era marxista, minha preocupação principal era em relação às pessoas comuns, pois achava que mereciam melhores condições de vida, mas a elite se aproveitava delas. Essa continua sendo minha maior preocupação, mas conforme os anos se passaram, aprendi que a elite cultural e a elite política fazem muito mais danos do que a elite econômica poderia um dia pensar em fazer.
Há uma explicação: as elites econômicas competem entre si. Se a General Motors não produz um tipo de carro que te agrade, você pode procurar na Ford, Chrysler, Honda, Toyota, etc. Mas se a Agência de Proteção Ambiental (EPA) chega no fundo do poço em relação ao serviço que presta, não há agência alternativa prestando o mesmo serviço ao qual se possa recorrer.
Mesmo quando uma empresa privada parece deter o monopólio da produção de um bem de consumo, como aconteceu com a Alcoa (Companhia de Alumínio da América), ela competirá com produtos alternativos. Se a Alcoa tivesse aumentado o preço do alumínio para aproveitar seu monopólio, muitas coisas fabricadas com alumínio passariam a ser produzidas com ferro, plástico, e outros tipos de materiais. O resultado final das forças do mercado foi, meio século depois do monopólio da Alcoa, o mercado passar a cobrar mais barato pelo alumínio do que cobrava inicialmente. Isso não se deu por altruísmo dos diretores da empresa, mas porque os competidores não lhes deixaram outra escolha.
A forma que você olha para o livre-mercado depende de como você enxerga o ser humano. Se todos fossem amáveis e gentis, o socialismo seria o melhor caminho. Em uma família tradicional, por exemplo, os recursos são gastos com as crianças, pois não ganham nenhum centavo sozinhas. Isso é socialismo doméstico, e até os capitalistas mais mesquinhos o praticam. Talvez um dia descobriremos criaturas em uma galáxia distante que conseguem conduzir uma sociedade inteira dessa forma. Mas a história dos seres humanos mostra que é inviável uma nação com milhões de pessoas funcionar dessa maneira.
O discurso do socialismo é inspirador, mas seus rastros na realidade são sombrios. Países que exportaram comida durante séculos, de repente se viram forçados a importar comida para evitar a fome, depois que a agricultura foi socializada. Isso aconteceu por todo o mundo, com pessoas de todas as raças. Qualquer um que tenha visto o contraste entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental, nos tempos em que metade da cidade era controlada por comunistas, não possui dúvidas em relação a qual sistema produz mais benefícios para o povo. As duas partes da cidade eram habitadas por pessoas de mesma raça, cultura e história, mas os que viviam na parte comunista eram muito mais pobres, além de terem menos liberdade.
Uma história parecida aconteceu na África, quando a Gana dependia de programas socialistas e a Costa do Marfim se baseava no livre-mercado, depois que ambos os países se tornaram independentes, na década de 1960. Gana começou com todas as vantagens. Sua renda per capita era o dobro da Costa do Marfim. Mas após duas décadas, com cada país sob influência de um sistema econômico diferente, 20% dos habitantes mais pobres da Costa do Marfim possuíam renda mais alta do que 60% da população de Gana.
Ineficiência econômica não é o pior aspecto de um governo socialista. A tentativa de reduzir a desigualdade econômica com o aumento da desigualdade política, que é a essência do marxismo, custou a vida de milhões de pessoas sob o poder de Stalin, Mao, Pol Plot, e muitos outros. Não se deve confiar o monopólio do poder sobre a vida das pessoas a políticos. Temos milhares de exemplos na história.
A minha vontade de que o povo tenha melhores condições de vida permanece, mas a experiência me mostrou, amargamente, que a maneira de alcançar este objetivo é o oposto do que eu imaginava.
[*] Thomas Sowell,From Marxism to the Market”. Capitalism Magazine, 2 de Janeiro de 2002.

sexta-feira, 30 de março de 2018

OS DEZ PRINCÍPIOS CONSERVADORES

Por Russell Kirk (Adaptado por Kirk de The Politics of Prudence)
Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o corpo de opiniões denominado Conservadorismo não possui um Livro Sagrado nem um Das Kapital para prover dogmas. Até onde é possível determinar em quê acreditam os conservadores, os primeiros princípios da convicção conservadora são derivados do que professaram os principais escritores e homens públicos conservadores durante os últimos dois séculos. Após algumas observações introdutórias neste tema geral, prosseguirei e listarei dez destes princípios conservadores.
Talvez fosse melhor, na maioria das vezes, usar a palavra “conservador” principalmente como um adjetivo. Pois não existe um Modelo Conservador, e o conservadorismo é a negação da ideologia: é um estado da mente, um tipo de caráter, um modo de olhar para ordem social civil.
A atitude a que chamamos conservadorismo é sustentada por um corpo de sentimentos, mais do que por um sistema de dogmas ideológicos. Em geral um conservador pode ser definido como alguém que se define como tal. O movimento conservador, ou corpo de opiniões, pode acomodar uma considerável diversidade de perspectivas em muitos temas, não havendo um “Test Act” ou “Trinta e Nove Artigos” do credo conservador.
Em essência, a pessoa conservadora é simplesmente aquela que acha as coisas permanentes mais satisfatórias do que o “Chaos and Old Night” (NT: Kirk alude aqui ao poema épico Paradise Lost de John Milton). (Embora os conservadores saibam, com Burke, que a “mudança saudável é o meio de nossa preservação”). A experiência histórica continuada de um povo, dizem os conservadores, oferece um guia para a política muito melhor que os projetos de filósofos de cafeteria. Mas, é claro, há muito mais para a convicção conservadora do que esta atitude geral.
Não é possível esboçar um catálogo simples das convicções dos conservadores. Entretanto, ofereço a você, sumariamente, dez princípios gerais. Parece seguro dizer que a maioria dos conservadores subscreveria a maior parte destas máximas. Em várias edições de meu livro The Conservative Mind listei certos cânones do pensamento conservador – a lista difere, de algum modo, de uma edição para outra; em minha antologia, The Portable Conservative Reader, ofereço variações sobre este tema. Agora apresento a você um resumo dos pressupostos conservadores que difere de algum modo de meus cânones naqueles dois livros. Em si, a diversidade de maneiras pelas quais as perspectivas conservadoras podem encontrar expressão é por si prova de que o conservadorismo não é uma ideologia fixa. Quais princípios são enfatizados por conservadores durante determinada época variará com as circunstâncias daquela época. Os dez itens de crença que se seguem refletem a ênfase dos conservadores na América hoje em dia.
  • Primeiro, o conservador acredita na existência de uma ordem moral perene.
Que a ordem é feita pra o homem, e o homem é feito para a ordem: a natureza humana é constante, e as verdades morais são perenes.
Ordem significa harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma, e a ordem externa da comunidade. Vinte e cinco séculos atrás Platão ensinou esta doutrina, mas mesmo os instruídos de hoje em dia acham-na difícil de entender. O problema da ordem tem sido sempre a principal preocupação dos conservadores desde que conservador tornou-se um termo político.
O mundo do século XX experimentou as consequências hediondas do colapso da crença na ordem moral. Como as atrocidades e desastres da Grécia cinco séculos antes de Cristo, a ruína das grandes nações no século XX mostra-nos o fosso no qual caem as sociedades que erradamente tomam o hábil interesse próprio ou engenhosos controles sociais como agradáveis alternativas a uma ordem moral “antiquada”.
Tem sido dito por intelectuais liberais que os conservadores acreditam que todas as questões sociais, em essência, sejam questões de moralidade privada. Propriamente entendida, esta afirmação é totalmente verdadeira. Uma sociedade na qual homens e mulheres sejam regidos pela crença numa ordem moral permanente, por um forte senso de certo e errado, por convicções pessoais sobre justiça e honra, será uma boa sociedade – qualquer que seja a organização política que ela possa utilizar; enquanto que uma sociedade na qual homens e mulheres estejam moralmente à deriva, ignorantes das normas e intencionem principalmente a satisfação dos apetites, será uma sociedade má – não importa quantas pessoas votem e não importa quão liberal sua constituição formal possa ser.
  • Segundo, o conservador adere ao costume, às convenções e à continuidade.
É a antiga tradição que capacita as pessoas a viverem juntas pacificamente. Os destruidores de costumes destroem mais do que desejam ou sabem. É através da convenção – uma palavra muito violentada em nossa época – que conseguimos evitar a disputa perpétua a respeito de direitos e deveres: a lei, em seus fundamentos, é um corpo de convenções. A continuidade é o significado de vincular geração a geração, importa tanto para a sociedade como para o indivíduo, sem isto a vida é sem sentido. Num tempo em que revolucionários bem sucedidos têm apagado antigos costumes, escarnecido de antigas convenções, e quebrado a continuidade das instituições sociais, porque atualmente descobriram a necessidade de estabelecer novos costumes, convenções e continuidade. Porém este processo é doloroso e lento, e a nova ordem social que eventualmente emerge pode ser muito inferior à antiga que os radicais derrubaram em seu entusiasmo pelo Paraíso Terrestre.
Os conservadores são defensores dos costumes, convenções e continuidade porque preferem o diabo conhecido ao diabo que não conhecem. Ordem, justiça e liberdade, acreditam, são produtos de uma longa experiência, o resultado de séculos de testes, reflexões e sacrifícios. Então, o corpo social é um tipo de corporação espiritual comparável à igreja. Pode mesmo ser chamado de comunidade das almas. A sociedade humana não é uma máquina para ser tratada mecanicamente. A continuidade, sangue vital de uma sociedade, não deve ser interrompida. O lembrete de Burke sobre a necessidade de mudança prudente, está na mente do conservador. Mas a mudança necessária, argumenta o conservador, deve ser gradual e discriminada, nunca quebrando antigos interesses imediatamente.
  • Terceiro, conservadores acreditam no que pode ser chamado princípio da prescrição.
É o senso conservador de que as pessoas modernas são anões nos ombros de gigantes, capazes de enxergar mais longe que seus ancestrais apenas devido à grande estatura daqueles que nos precederam no tempo. Consequentemente os conservadores quase sempre enfatizam a importância da prescrição – isto é, das coisas estabelecidas pelo uso imemorial, de modo que a mente humana não caminhe ao contrário. Há direitos para os quais o principal reconhecimento público é a antiguidade – incluindo, quase sempre, direitos de propriedade. Similarmente, nossa moral é em grande parte prescritiva. Conservadores argumentam ser improvável que nós modernos façamos qualquer grande descoberta em moral, política ou propensão. É perigoso pesar cada questão passageira na base do julgamento e racionalidade particulares. O indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia, declarou Burke. Em política fazemos melhor obedecendo ao precedente, ao preceito e mesmo ao preconceito, pois a grande incorporação misteriosa da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior que qualquer insignificante racionalidade particular.
  • Quarto, conservadores são guiados por seu princípio de prudência.
Burke concorda com Platão que num homem de estado a prudência seja a maior virtude. Qualquer medida pública deve ser julgada por suas prováveis consequências de longo prazo, não apenas por sua vantagem temporária ou popularidade. Liberais e radicais, dizem os conservadores, são imprudentes: pois eles traçam seus objetivos sem dar muita atenção ao risco de novos abusos, piores que os males que esperam eliminar. Como colocou John Randolph, de Roanoke, a Providência move-se lentamente, enquanto o diabo sempre se apressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios, para serem eficazes, não podem ser simples. O conservador declara que age apenas após reflexão suficiente, tendo pesado as consequências. Reformas repentinas e profundas são perigosas como cirurgias repentinas e profundas.
  • Quinto, conservadores prestam atenção ao princípio da diversidade.
Conservadores sentem afeição pela intrincada proliferação de instituições sociais de longa data e pelos modos de vida, distintos da estreita uniformidade e sufocante igualitarismo dos sistemas radicais. Para a preservação de uma diversidade saudável, em qualquer civilização, devem sobreviver ordem e classes, diferenças nas condições materiais e muitos tipos de desigualdades. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Julgamento Final e igualdade perante um justo tribunal da lei. Todas as outras tentativas de nivelamento levarão, na melhor das hipóteses, à estagnação social. A sociedade requer líderes capazes e honestos, e se as diferenças institucionais e naturais são destruídas, brevemente algum tirano ou algum bando de oligarcas sórdidos criarão novas formas de desigualdade.
  • Sexto, conservadores são refreados por seu princípio de imperfectibilidade.
A natureza humana sofre irremediavelmente de certas faltas graves, sabem os conservadores. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada. Devido à inquietação natural, a espécie humana se rebelaria sob uma dominação utópica e eclodiria uma vez mais em descontentamento violento, ou senão, expiraria em tédio. Procurar pela utopia é terminar desastre, dizem os conservadores: não somos feitos para as coisas perfeitas. Tudo que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade aceitavelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustamentos e sofrimentos continuarão a espreitar. Pela atenção adequada à reforma prudente podemos preservar e melhorar esta ordem aceitável. Mas se as antigas salvaguardas institucionais e morais de uma nação são esquecidas, então a o impulso anárquico da espécie humana desprende-se: “a cerimônia da inocência é suprimida”. Os ideólogos que prometem a perfeição do homem e da sociedade têm convertido grande parte do mundo, desde o século XX, num inferno terrestre.
  • Sétimo, conservadores estão persuadidos de que propriedade e liberdade estão intimamente vinculadas.
Dissocie propriedade de posse privada e o Leviatã torna-se o dono de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada grandes civilizações são construídas. Quanto mais ampla a posse de propriedade privada, tanto mais estável e produtiva é a comunidade. Nivelamento econômico, sustentam os conservadores, não é progresso econômico. Ganhar e gastar não são os principais propósitos da existência humana, mas uma sólida base econômica para a pessoa, a família e a comunidade, é muito desejável.
O Sr Henry Maine, em seu Village Communities, expressa robusta defesa da propriedade privada como distinta da propriedade comunal: “Ninguém é livre para atacar a múltipla propriedade e dizer ao mesmo tempo que valoriza a civilização. As histórias de ambas não podem ser desentrelaçadas”. Pois a instituição da múltipla propriedade – isto é, propriedade privada – tem sido um poderoso instrumento para ensinar responsabilidade a homens e mulheres, por prover motivos de integridade, por estimular a cultura geral, por elevar a espécie humana acima do nível de mera labuta, por fornecer tempo para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de conservar os frutos do trabalho de alguém; ser capaz de assegurar que o trabalho de alguém seja duradouro; ser capaz de legar a propriedade de alguém para a posteridade; ser capaz de elevar o homem da condição natural de pobreza opressiva para a proteção da realização duradoura; possuir algo que seja realmente sua propriedade– são benefícios difíceis de negar. Os conservadores sabem que a posse de propriedade estabelece certas obrigações sobre o proprietário, eles aceitam alegremente estas obrigações morais e legais.
  • Oitavo, conservadores apoiam a associação voluntária, tanto quanto se opõem ao coletivismo involuntário.
Embora os Americanos tenham sido fortemente vinculados à intimidade e à privacidade, eles também têm sido um povo notório por um bem sucedido espírito de comunidade. Numa comunidade genuína as decisões que afetam mais diretamente as vidas dos cidadãos são tomadas voluntariamente e localmente. Algumas destas funções são realizadas por entidades políticas locais, outras por associações privadas: tanto quanto elas sejam mantidas locais, e sejam marcadas pela concordância geral daqueles que são afetados, elas constituem uma comunidade saudável. Mas quando estas funções passam, por definição ou usurpação, a uma autoridade centralizada, então a comunidade está sob séria ameaça. Tudo o que seja beneficente ou prudente na democracia moderna torna-se possível através da cooperação voluntária. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma direção política distante, o governo real, pelo consenso dos governados, cederá a um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humana.
Pois uma nação não é mais forte que as numerosas pequenas comunidades das quais é composta. Uma administração central, ou um grupo de seletos administradores e servidores civis, embora bem intencionado e bem treinado, não pode oferecer justiça, prosperidade e tranquilidade sobre uma massa de homens e mulheres despojados de suas antigas responsabilidades. Este experimento foi feito antes, e foi desastroso. É o desempenho de nossas obrigações na comunidade que nos ensina a prudência, a eficiência e a caridade.
  • Nono, o conservador compreende a necessidade de restrição prudente sobre o poder e sobre as paixões humanas.
Falando politicamente, poder é a capacidade de fazer algo que alguém queira, indiferente às vontades dos demais. Um estado no qual um indivíduo ou pequeno grupo é capaz de dominar as vontades de seus companheiros sem consulta é um despotismo, seja ele chamado monárquico ou aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa afirma ser um poder por si mesma, então a sociedade cai na anarquia. Sendo intolerável para todos e contrária ao fato inelutável de que algumas pessoas são mais fortes e mais engenhosas que seus vizinhos, a anarquia nunca dura muito. À anarquia sucede-se a tirania ou a oligarquia, na qual o poder é monopolizado por alguns poucos.
O conservador empenha-se então em limitar e equilibrar o poder político para que a anarquia ou a tirania não possam surgir. Em cada época, entretanto, homens e mulheres são tentados a derrubar as limitações sobre o poder, por amor a alguma vantagem temporária imaginária. É característico do radical que ele pense no poder como uma força para o bem – desde que o poder esteja em suas mãos. Em nome da liberdade, os revolucionários Franceses e Russos aboliram as antigas limitações ao poder, mas o poder não pode ser abolido, ele sempre encontra seu caminho para as mãos de alguém. Aquele poder que os revolucionários pensavam opressivo nas mãos do antigo regime tornou-se, muitas vezes, tirânico nas mãos dos novos controladores radicais do estado.
Conhecendo a natureza humana como sendo uma mistura de bem e mal, o conservador não coloca sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, pesos e contrapesos políticos (divisão de poderes), cumprimento adequado das leis, a velha intrincada teia de restrições sobre desejos e apetites – são restrições que os conservadores aprovam como instrumentos de liberdade e ordem. Um governo justo mantém uma saudável tensão entre a afirmação da autoridade e a afirmação da liberdade.
  • Décimo, o pensador conservador entende que permanência e mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas numa sociedade vigorosa.
O conservador não se opõe ao aperfeiçoamento social, embora duvide que haja qualquer força tal como um místico Progresso, com P maiúsculo, em funcionamento no mundo. Quando uma sociedade está progredindo em determinados aspectos, está regredindo em outros. O conservador sabe que qualquer sociedade saudável é influenciada por duas forças, as quais Samuel Taylor Coleridge chamou Permanência e Progressão. A Permanência de uma sociedade é formada por aqueles interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade. Sem a Permanência, as nascentes de grande profundidade são interrompidas, a sociedade decai na anarquia. A Progressão numa sociedade é aquele espírito e aquele corpo de habilidades que nos instigam à reforma prudente a ao aperfeiçoamento. Sem esta Progressão, o povo estagna.
Portanto o conservador inteligente empenha-se em reconciliar as afirmações de Permanência e as afirmações de Progressão. Ele pensa que o liberal e o radical, cegos às justas afirmações da Permanência, arriscariam a herança que nos foi legada numa tentativa de nos conduzir para um duvidoso Paraíso Terrestre. O conservador, em resumo, prefere o progresso razoável e moderado. Opõe-se ao culto ao Progresso, cujos adeptos acreditam que qualquer coisa nova seja necessariamente superior a qualquer coisa antiga.
Mudança é essencial para o corpo social, raciocina o conservador, assim como é essencial ao corpo humano. Um corpo que tenha cessado de se renovar, começou a morrer. Mas para que este corpo seja vigoroso, a mudança deve ocorrer de forma regular, em harmonia com a forma e a natureza daquele corpo. De outra maneira a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer, que devora seu hospedeiro. O conservador preocupa-se com que nada na sociedade deva ser inteiramente antigo, e que nada deva ser, nunca, inteiramente novo. Este é o significado de conservação de uma nação, tanto quanto seja o significado de conservação de um organismo vivo. Quanta mudança uma sociedade requer, e que tipo de mudança, depende das circunstâncias da época e da nação.
Tais, então, são dez princípios que têm amplamente emergido durante dois séculos de pensamento conservador. Outros princípios poderiam ter sido discutidos aqui: por exemplo, o entendimento conservador de justiça, ou a perspectiva conservadora de educação. Mas tais temas, com o passar do tempo, devo deixar para sua própria investigação.
A grande linha de demarcação na política moderna, como costumava destacar Eric Voegelin, não é a divisão entre liberais de um lado e totalitários do outro. Não, em um lado desta linha estão aqueles homens e mulheres que imaginam que a ordem temporal seja a única ordem, que as necessidades materiais sejam as únicas necessidades, e que podem fazer o que bem quiserem com o patrimônio da humanidade. Do outro lado desta linha estão aquelas pessoas que reconhecem uma ordem moral permanente no universo, uma natureza humana constante, e altas obrigações diante da ordem espiritual e da ordem temporal.
Por Russell Kirk (Adaptado por Kirk de The Politics of Prudence)
Traduzido por Flávio Ghetti

terça-feira, 17 de outubro de 2017

KARL POPPER E A TEORIA CIENTIFICA DA DEMARCAÇÃO E FALSEABILIDADE


 
 Biografia de Karl Popper


Karl Popper (1902-1994) foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico, que elaborou teorias que refutavam o ideal totalitário dos regimes comunistas e nazistas. Foi um dos maiores filósofos do século XX. Escreveu livros como a “Lógica da Pesquisa Científica” e “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”.Karl Raimund Popper (1902-1994) nasceu em Viena, na Áustria, no dia 28 de julho de 1902. Descendente de família judaica recebeu grande incentivo para os estudos. Ingressou na Universidade de Viena e doutorou-se em Filosofia. Com a ascensão do nazismo, emigrou para a Nova Zelândia. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, tornou-se assistente de ensino na London School of The Economics, em método científico,. Passou a professor em 1949.Karl Popper esboçou a teoria cujo fundamento era a ideia do racionalismo crítico, que em sua essência era uma crítica ao método indutivo e à ciência. Popper achava que as teorias científicas eram passíveis de erros e críticas, não havendo assim, uma teoria da ciência que fosse eterna e imutável. Segundo ele o que deveria ser feito por outros estudiosos era a comprovação da falseabilidade das teorias científicas para elaboração de outras que poderiam resolver as questões propostas pela ciência.Karl Popper era um simpatizante do comunismo, mas abandonou o partido comunista quando percebeu que muitos amigos morreram em defesa da causa marxista. Tornou-se adepto das ideias liberais da escola austríaca, seguindo o exemplo de Ludwig Von Misses e F. Hayek.A obra mais famosa do filósofo é “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos" (1945), onde Popper refletiu que o regime democrático representativo é uma forma de limitar o poder do Estado e de ideologias como o nazismo e o comunismo que são perigosas para a formação da sociedade aberta e democrática.Karl Popper faleceu em Kenley, Inglaterra, no dia 17 de setembro de 1994.

Muitos dos conceitos que nós, seres humanos, criamos para melhor lidar com aspectos do nosso mundo precisam ser bem definidos, bem determinados, sob pena de tornar a comunicação mais difícil do que já é naturalmente.Conceitos vagos ou imprecisos impedem que um debate racional se desenvolva e ele pode acabar em impasse, em que cada lado usa o mesmo termo de forma diferente, sem chance de se chegar a um acordo, compreensão do ponto de visto contrário ou entendimento sobre o que se debate.O uso do termo energia é um exemplo clássico de mau uso de termos vagos e imprecisos, gerando todo tipo de confusão, mistificação e distorção que podemos imaginar. O conceito de Ciência também.A Ciência é imensamente importante para nossa compreensão do mundo, e ao mesmo tempo profundamente mal compreendida por quem faz uso do termo. E há motivos para isso, pois não é um conceito simples ou fácil.
“Para conhecimento mais profundo da natureza do próprio saber, não há atalhos”
Toda uma área do conhecimento foi construída para tentar explicar e definir esse conceito-chave de nossa compreensão do mundo: a Filosofia da Ciência. E um dos mais influentes, importantes, capazes e interessantes pensadores a se debruçar sobre esse problema, definir o que é ciência, foi Karl Popper, um de meus heróis intelectuais, junto a Darwin e David Hume. E este artigo vai tentar explicar a visão básica deste pensador sobre a ciência e seus desdobramentos.Infelizmente, não há uma forma simples ou curta de fazer isso. Embora seja importante tentar ser claro e simples ao se discutir qualquer problema, existem aqueles que são de natureza complexa e difícil, e precisam ser abordados de forma a refletir essa complexidade. Para conhecimento mais profundo da natureza do próprio saber, não há atalhos.
 O que é Ciência
· Investigação racional ou estudo da natureza, direcionado à descoberta da verdade. Tal investigação é normalmente metódica, ou de acordo com o método científico um processo de avaliar o conhecimento empírico:
· O corpo organizado de conhecimentos adquiridos por estudos e pesquisas.
Ciência tem diversas definições, mais ou menos amplas, para serem utilizadas conforme a necessidade ou ocasião. Pelo menos em conversas mais corriqueiras e para debates relacionados, mas acessórios. Quando se discute a ciência propriamente dita, é mais complicado. Uma definição que eu acho interessante para começar a entende-la é a que lida com o processo de produção da ciência: ciência é o conjunto de conhecimentos, confiáveis e coerentes, produzidos através do método científico.Para quase todos os propósitos é uma definição suficiente, útil e válida. Mas é um tanto circular. O que é método científico? É um sistema usado pela ciência para testar o conhecimento, conclusões e alegações. Assim, ciência é algo que usa a ciência para ser produzido, e não esclarece muito, afinal.
 Indução versus dedução
David Hume analisou o problema da indução, o conhecimento do mundo através da indução. Grosso modo (porque, tentar explicar David Hume levaria a outro artigo, mais alguns livros, palestras, talvez um curso intensivo de alguns anos, etc, etc..:-), considere que, depois de ver o Sol nascer todos os dias, por alguns anos, seria possível dizer que amanhã o Sol também nascerá. Ou depois de ver apenas cisnes brancos por muito tempo, concluíssemos que todos os cisnes são brancos. O passado seria um guia confiável para o futuro.Esse seria um conhecimento válido, científico, obtido por indução. Mas Popper (como Hume e até Einstein) via muitas falhas nesse processo. Depois de analisar muitos corvos negros, por exemplo, e afirmar que todos os corvos são negros, bastaria encontrar um único corvo branco para que a afirmação se mostrasse incorreta. Não se tratava de um conhecimento, uma conclusão, confiável.
“A indução poderia até servir de base para o início da investigação”
No lugar da indução, a dedução seria a ferramenta para produzir ciência. Assim, elementos deveriam ser analisados em conjunto para se deduzir uma regra geral, uma lei ou um conhecimento, que deveria ser validada por verificação posterior.É o mesmo processo que leva a investigação criminal a encontrar o criminoso. De forma simplificada (e bastante grosseira, pois temos muito ainda a cobrir nesse assunto), um indutivista encontraria o criminoso procurando por quem habitualmente comete este tipo de crime, e o dedutivista procuraria evidências que ligassem o criminoso ao local, vítima, arma ou situação do crime. Observe que a indução poderia até servir de base para o início da investigação (MO, ou modus operandi), mas não seria suficiente para uma conclusão confiável, científica.O caso particular (juízo particular) não pode, a partir de um salto não embasado, justificar todos os casos (juízo universal).
 Demarcação – Ciência versus pseudociência (física versus metafísica)
Popper considerava que mesmo a dedução não leva a certezas, mas apenas a possibilidades, probabilidades, aproximações da realidade ou verdade. Teorias científicas não seriam exatas, mas aproximadas. Todo o esforço, então, seria para se chegar cada vez mais próximo da realidade.Ele pretendia um critério que demarcasse os campos, definisse limites, do que seria ciência e do que não seria ciência. Sendo toda teoria provisória, temporária (no sentido estrito de que pode ser melhorada ou ajustada), é preciso determinar quando a ciência termina e a pseudociência começa.Chegamos ao conceito de falseabilidade. É um dos conceitos mais mal compreendidos na filosofia da ciência, e muitos parecem pensar que ser falseável equivale a ser falso, ou seja, que se trata da aceitação de que todo conhecimento científico é falso em alguma medida, e portanto, qualquer outro conhecimento tem a mesma validade (uma questão de escolha, como dizem alguns).Todavia, algo pode ser falso ou não e ao mesmo tempo – pode ser falseável ou não. São coisas distintas, bastante distintas. Alguns exemplos com outros termos: algo pode ser vendável mas não ter sido vendido, ainda. Ou seja, pode estar disponível para venda, mas ninguém o comprou. A água pode ser potável, mesmo que ninguém a tenha bebido. Um banco pode ser vulnerável a roubos, mesmo que ninguém o tenha roubado.
“Só é possível tentar “provar” que uma teoria é falsa, se existir uma forma de fazer isto”
Uma teoria deve ser falseável, mesmo que não seja falsa ou não tenha sido demonstrada falsa. É a possibilidade de ser, que torna uma teoria científica. E boa parte do esforço da pesquisa científica é justamente tentar falsear uma teoria. Quanto mais ela resiste, mais se torna confiável e provável de ser correta.Toda teoria cientifica, em especial as mais revolucionárias, recebeu forte, fortíssima oposição, quando proposta inicialmente. Diversos pesquisadores fizeram o possível para demonstrar que eram incorretas, criando experimentos que demonstrassem que era falsa. Ao resistir a estas verdadeiras baterias de testes, a teoria não se provou definitivamente correta, mas aumentou sua confiabilidade, a probabilidade de ser correta.Entretanto, só é possível tentar provar que uma teoria é falsa, se existir uma forma de fazer isto ou, em outras palavras, se a teoria for falseável, se existir alguma possibilidade de refutar esta teoria. Mesmo que ainda não seja tecnicamente possível fazê-lo, deve existir a possibilidade.Quando Einstein propôs a teoria da relatividade em 1905, uma forma de testá-la seria medir a passagem da luz de uma estrela pelo campo gravitacional de uma outra estrela, o Sol, por exemplo. Naquele momento, isto ainda não era possível. Foi preciso esperar pelo eclipse de 1919 para que o teste fosse feito. Mesmo assim, a relatividade era científica, pois havia uma foram de falseá-la (se a observação durante o eclipse fosse outra, isso refutaria a teoria de Einstein).
“É possível falsear a Teoria da Evolução”
Para Popper, essa é a marca da ciência, o que fornece a demarcação entre ciência e pseudociência, entre física e metafísica: a falseabilidade.Vejamos então algumas teorias científicas, como a Teoria Gravitacional. Matéria atrai matéria na relação direta das massas e no inverso do quadrado das distâncias. Há uma forma de falsear a teoria? Sim, encontrar qualquer corpo orbitando outro sem obedecer a essa razão, por exemplo. Um pesquisador poderia, para provar que a teoria é falsa, colocar um satélite em órbita que não se comportasse dessa forma. Ou descobrir um corpo celeste que não se comportasse dessa forma.O fato de que nunca foi possível colocar um objeto em órbita que não obedecesse a essa regra, dá confiança à teoria. Mas ainda assim existe uma forma de provar que ela é falsa.E a Teoria da Evolução? Também é possível provar que é falsa, também existem possibilidades que podem invalidar a teoria. O fato de que nunca se conseguiu uma refutação confere maior confiança à teoria, dá credibilidade a ela. Todavia, é possível falsear a Teoria da Evolução.
“Se meu mapa astral apresenta algo que parece correto a meu respeito, é um “acerto”
O famoso coelho cambriano, por exemplo, refutaria totalmente a Teoria da Evolução, como é formulada hoje. Não importa que jamais se tenha encontrado um fóssil na camada geológica errada (coelho no período cambriano). Basta saber que se ele fosse encontrado, falsearia a teoria. Existem várias formas de se demonstrar que a evolução é falsa. Teorias científicas são reais, verdadeiras, mas falseáveis. São teorias científicas, no sentido popperiano.
E pseudociências? Como se saem no teste de falseabilidade?
Não muito bem.
A Astrologia, por exemplo. Não há nenhuma forma de falsear a hipótese astros influenciam as vidas e o futuro das pessoas, a partir da data de seu nascimento. A hipótese astrologia é construída à prova de refutação. Nenhum estudo ou experimento jamais logrou demonstrar que não é real, porque da forma como é construída a astrologia, não existe forma de fazer isso. A astrologia é infalseável.Se meu mapa astral apresenta algo que parece correto a meu respeito, é um acerto. Se apresenta algo claramente errado, é influência de outras variáveis. Ou seja, não importa o que um mapa astral diga, nada pode ser apresentado como refutação. Não há nenhum mecanismo conhecido que possa, caso ocorra, refutar a astrologia.
“Pode parecer piada, mas é a forma como pseudociências são construídas”
Mesmo que um mapa astral cuidadosamente feito não apresente um único acerto, e apenas erros crassos, isso não falseia a teoria, pois é até mesmo esperado que ocorra, devido a forma como os proponentes apresentam esse conhecimento.Algumas pseudociências até tentam ganhar o status de científicas, apresentando-se para testes de falseabilidade. Mas rapidamente desistem e voltam a situação infalseável. A homeopatia, ao ser testada em laboratório, e falhado, resolveu que seu paradigma é diferente, que ela não pode ser avaliada da mesma forma como o restante das teorias científicas, que sua aplicação é holística, que até as falhas são na verdade evidências de que ela é eficaz, mas diferente, e que não ter forma de ser demonstrada falsa é uma virtude, não uma falha da teoria. Há um relato do pesquisador Hyman em um estudo sobre homeopatia em que, depois de mais um teste feito, com rigoroso controle duplo-cego, o homeopata diz: tá vendo, é por isso que nunca fazemos testes duplo-cegos, eles nunca funcionam. Pode parecer piada, mas é a forma como pseudociências são construídas: à prova de refutação. O erro é sempre dos outros, jamais dela mesmo.
Hipóteses, teorias e fatos
Hipóteses científicas teorizam sobre fatos e necessitam ser corroboradas por experimentos. Experimentos testam as previsões e desdobramentos de uma hipótese. Se há um acumulo de previsões validadas; se o conjunto de evidências, dados, fatos, experimentos e previsões validades se acumula; se as tentativas de falsear a hipótese se acumulam, e falham sempre, a hipótese se torna uma teoria científica confiável. Não a verdade absoluta, e nem mesmo uma certeza, mas algo mais sutil, uma explicação confiável, até onde é possível ser confiável. Esse processo se chama verificação.Quanto mais verificações, quanto mais elementos de convicção, mais sólida é uma teoria científica. E sempre falseável, ou seja, um único elemento contrário de prova e a teoria será refutada.
 O Dragão na Garagem
O conhecido exemplo criado por Carla Sagan do dragão na garagem pode ajudar a entender o problema. Suponha que seu amigo mais próximo diga, veja, eu tenho um dragão em minha garagem. Você, como uma pessoa de mente aberta, e apreciador de dragões, fica animado, e diz puxa, gostaria muito de ir a sua garagem ver isso de perto.Na garagem, ele abre a porta e você olha para dentro. Nada, não vê nada que não devesse existir em uma garagem, nenhum dragão. Você olha para o amigo com cara de espanto, e este diz, pois é, ele é invisível.Tudo bem, um dragão invisível é mais legal ainda que um dragão normal (supondo que existam dragões normais, claro), e você se adianta para tocar o dragão com as mãos. Mas, é um dragão intangível, diz o amigo. Você então resolve jogar farinha no chão, para ver as pegadas dele, mas, ele flutua, diz o amigo. Você respira mais fundo, para sentir o cheiro do dragão, mas, ele é inodoro. Você resolve buscar um sensor de calor, para medir o fogo que sai das narinas, mas, o fogo desse dragão é frio. Você então sugere um espectrógrafo de massa, para medir a massa do dragão, mas, ele é incorpóreo.
“Não ser científico não significa, entretanto, que não algo não exista”
Para cada coisa que você sugere para detectar o dragão, seu amigo cria uma explicação sobre porque não vai ser possível. O dragão é infalseável. Claro que nada disso prova que não existe um dragão invisível, inodoro, incorpóreo, intangível, que cospe fogo frio na garagem de seu amigo. Mas a condição de não existir nenhuma maneira de falsear a existência desse dragão torna-o não científico e indistinguível de dragão nenhum. Um dragão com essas características e nenhum dragão são a mesma coisa, para todos os efeitos práticos.Não ser científico não significa, entretanto, que não algo não exista. Essa é uma acusação comum contra a ciência e contra cientistas: mas vocês pensam que porque a ciência não provou, então não existe, seus, seus, seusmentes fechadas? Não, a ciência não pensa dessa forma. Mas sem evidências, sem ser falseável, não é ciência, não é científico. A questão é que mesmo as pessoas que fazem essa acusação entendem que é mais seguro confiar em conhecimento científico que em outros tipos de conhecimento.
“Críticos da demarcação de Popper a utilizam alguma forma”
Estes são os critérios de demarcação de Popper. Existem críticas a ele, mas no momento é a melhor forma que dispomos para definir o alcance do termo científico. Mesmo críticos da demarcação de Popper a utilizam alguma forma, ou teriam de aceitar a astrologia, com todos seus dados empíricos, todos seus cálculos, toda sua parafernália verborrágica, como ciência.Em resumo, a posição de Popper, a demarcação, defende que: Uma teoria que não pode ser refutada não deve ser considerada científica. A irrefutabilidade não é uma virtude, mas, sim, um defeito.
· Todo o teste ou experimento sobre uma teoria é uma tentativa para refutar esta teoria. Ser testável, nesse sentido, equivale a ser refutável.
· A descoberta de novos fatos, de acordo com as previsões de uma teoria, não a elegem a verdade última, apenas a corroboram. Quando é corroborada por um teste ou experimento, ou seja, quando uma observação cujo resultado poderia eventualmente refutar a teoria não se confirma, isto torna a teoria mais robusta e confiável, sem, no entanto, confirmá-la 100% ou torná-la uma verdade absoluta.
“Ao resistir a tentativas de refutação, uma teoria será sempre mais confiável”
E, para não restar engano, isso não significa que o que estiver fora dessa demarcação não existe ou não é verdadeiro. Significa apenas que não é científico. A metafísica pode ser verdadeira, real? Pode. Pode ser científica? Não, pois não é falseável.Esse engano deriva do fato, evidente para todos, de que na prática, na vida real, é mais seguro escolher, fazer opções, definir caminhos e posições, baseado no conhecimento científico. É uma escolha que mesmo o mais metafísico dos indivíduos acaba fazendo, ao escolher ser operado de uma apendicite aguda (e receber antibióticos) do que ir ao xamã e esperar que processos metafísicos o curem. Pode ser que existam esses processos metafísicos de cura, e pode ser que sejam eficazes, mas temos certeza de que o cirurgião e a medicina moderna no hospital existem e são eficazes.Ao resistir a tentativas de refutação, uma teoria será sempre mais confiável que outra que só possui defensores e apoiadores, mas não passou pelo teste de falseabilidade.Este não é um assunto fácil, mas é um assunto fascinante. Para quem quiser saber mais, sugiro que comece pelos links abaixo, ou procure por Karl Popper, David Hume e o Problema da Incompletude na Internet e em livros. Vale o esforço, de verdade.

Falseabilidade da Ciência


I) A Diferença entre Indução e Dedução:

Uso Comum:  Usa-se dedução para qualquer descoberta que alguém fez com base em informações incompletas, e indução está geralmente ligada ao ato de induzir, mas muitas vezes com um significado negativo, o famoso “foi induzido”. No campo científico, ambas são inferências.

Inferências:  Inferência é quando uma proposição é concluída como verdadeira, a partir da relação entre duas ou mais proposições. Explicando de outra maneira, é quando se admite uma verdade, uma conclusão para sua hipótese, tendo por base algumas noções assumidas como verdade anteriormente.
– Inferência Indutiva:  A indução conclui uma verdade mais geral a partir de premissas mais particulares. (Por Exemplo:  Todos os objetos observados até agora exercem força gravitacional. Logo, se mais um objeto for observado, ele exercerá força gravitacional.)
– Inferência Dedutiva: A dedução parte de premissas mais gerais para chegar a uma conclusão particular. (Por Exemplo: Todo ser humano é mortal. Eu sou um ser humano. Logo, sou mortal.)

Avanço Científico:  No entanto, principalmente com o avanço da ciência, a indução se tornou a principal forma de se concluir um raciocínio científico. Enquanto o juízo dedutivo apenas esclarece o que já se sabe, o indutivo fornece um novo conhecimento.

Indução Ingênua:  Essa se constrói de forma simplista, como no caso acima, acreditando que se um caso se repetiu em todas as vezes que o teste se fez presente, de algum modo isso faz parte das características daquele fenômeno e pode ser interpretado como lei geral.  Tal indução parte da ideia de que se um fenômeno foi verificado inúmeras vezes, em diversos momentos e condições, apresentando o mesmo resultado, significa que o fenômeno está intrinsecamente ligado a esse resultado.

Crítica à Indução Ingênua:  Em um exemplo simples, se um mesmo evento ocorre todos os dias, pode-se até admitir que o mais provável seja que ocorra amanhã, mas como o amanhã ainda não chegou, o que se tem aqui é apenas a admissão de um fato ainda não observado.

– David Hume:  O inglês David Hume, importante empirista, propôs que tentar justificar a indução apenas aumentando o número de experimentos não garante sua certeza; e que recorrer à lógica comprovativa, ou seja, dizer que tem funcionado desde sempre, é apenas propor outra indução.

Probabilidade como Saída:  Uma das saídas é tentar abordar a noção de probabilidade, ou seja, afirmar que a indução não fornece a verdade, mas a probabilidade da ocorrência do evento. Isso contudo leva ainda para o problema de “quão provável” algo pode ser. Isso nos leva à três caminhos possíveis:
– Ceticismo:  Admitindo que todo conhecimento é apenas uma “fé” na razão indutiva.
– Funcionalidade:  O famoso “tem funcionado até agora”.
–  Crítica: Tenta separar o princípio indutivo da base da ciência. Aqui entra Karl Popper.

II) A Falseabilidade:

Crise Teórica: Como uma análise mais delicada da indução, é possível propor que aqueles que defendem a indução, em geral, desconsideram a importância da teoria na construçãoda observação. O  fato é que a maioria das observações científicas são direcionadas por um  determinado sistema teórico do qual fazem parte. A maioria das teorias é concebida antes do experimento ser constituído, para referendar ou negá-las.

Princípio da Falseabilidade:  Popper admite essa crítica como verdadeira. A ciência não evoluiria então de um modelo indutivo ou dedutivo perfeito, mas sim pela estrutura datentativa e do erro. Quando uma falha na teoria é verificada pela observação, esta deve ser superada, e uma nova deve se apresentar. Em outras palavras, Popper admite a ciência como sendo fruto das tentativas de falsear as teorias enunciadas, ora enriquecendo às nessa tentativa, ora desconstruindo-as;

Verdade Passageira:  Em outras palavras, a ciência deve admitir que suas teses sejam na verdade especulações que ainda não foram negadas. Contudo, para que isso seja um fato, é necessário que as teorias sejam construídas sempre com a perspectivas de serem falsificadas, ou seja, expostas como falsas após as observações.

Generalidade, Falseabilidade e Verdade: É mais fácil invalidar um determinado sistema minando uma de suas várias premissas, do que uma única afirmação particular. Além disso, a abertura para a falsificação leva os pesquisadores a construírem um corpo cada vez mais pertinente e preciso de teorias, para tentar escapar da refutação.

Prudência Teórica: Não adianta propor qualquer tese assumindo que será falsificada. Em outras palavras, para que a falsificabilidade funcione, é necessário um compromisso sério em atingir a verdade; a possibilidade de ser falsificada é um pressuposto futuro, não um guia do presente. A visão falsificacionista, então, é uma estratégia para melhorar as teorias e deixá-las conscientes de suas limitações, mas não uma forma de diminuir o seu valor, ou suscitar uma “audácia” gratuita em sua construção.